Sob o signo da ameaça
Para um palco em que o jogo de cena vale mais do que os atos concretos, é normal aceitar o estrilo do presidente FHC pela morosidade do Congresso com as reformas. Depois ele amenizou e insistiu em dizer que não pediu desculpas, o que na verdade pouco importa, já que ele conseguiu o que queria: partilhar o seu imenso desprestígio, registrado nas pesquisas, com outro poder. Agora ficou firmado, claramente, como desejava o presidente, que o Parlamento detém a maior culpa no cronograma das reformas, sobre as quais tem, também, o FMI se pronunciado com regularidade como indisdensáveis a um país na UTI.
Outros fazem ameaça: Brizola com o cantochão da renúncia, logo ele que pediu um ano a mais para o general Figueiredo e que foi aliado aberto do Collor; o MST, alertando que vai invadir supermercados se as cestas básicas não chegarem no número e na hora esperados; os ruralistas, com sua visão de Ku-Klux-Klan, prometem ao governo, que acertadamente os driblou numa reivindicação sórdida, reprimendas próximas.
Como até poderes de Estado fazem ameaças, não espanta que o Tribunal de Contas tenha dado prazo de dez dias a Lerner para que submeta as contas das chamadas organizações sociais aquele órgão. Bastou o governo descobrir uma forma mais flexível de fugir ao cerco da burocracia, apelando para uma formulação moderna de organização, e pronto, o TC chiou e ameaça. Uma das entidades que pretendem fugir a esses controles é a Paranaprevidência, sub-judice no Judiciário e que terá, em breve, uma decisão sobre as numerosas liminares já concedidas contra esse estatuto, já que o Tribunal de Justiça decidiu que caberá ao Órgão Especial, com reserva de plenário, a deliberação, final e disciplinadora, sobre o polêmico tema.
Quem pensa, porém, que as coisas acabam aí se engana: a OAB-PR e as ONGs que tratam de direitos humanos também deram dez dias para que Lerner ou remonte o sistema carcerário do Paraná ou abra todas as cadeias. O curioso é que a veemência dos oradores esqueceu de um detalhe: além de alojar mal os presos, o governo não lhes oferece um mínimo de garantia, como se viu no caso dos 20 encapuzados que mataram um criminoso na Delegacia de Furtos de Automóveis e que seriam um esquadrão de extermínio da própria corporação, conforme a presunção do delegado Anníbal Bassan, então corregedor.
E que poderes temos nós para gritar, exigir, dar prazo a um governo que não funciona e que já quebrou o Estado, pela fraude e a incompetência, e age como se ainda tivesse saído de um batismo eleitoral e não fosse velho e superado?



BIZARRICE
Nos textos de comerciais na rádio, em jornadas esportivas, o locutor exaltava a cerveja em garrafa ou barril. Só que leu assim: ‘‘Barrafa ou garril’’



AXIOMA Foi preciso a morte de Aníbal Khury para que os deputados revogassem a reeleição do presidente da Casa. Com isso se facilita o inventário e se cria condições para um novo tipo de partilha.
GLOSA Governo trombeteia a adesão de mais de 40 prefeitos ao PFL, faz mistério e não mostra a relação. Só que no Legislativo a bancada caiu pela metade. Como dizia Manoel Ribas sobre uma cidade paranaense: cresce como rabo de cavalo, para baixo!
SPRAY O PMDB vai transformar a questão dos escândalos da gestão Belinati em Londrina, inclusive, com estímulo à denúncia telefônica, num fator de ativação gremial em clima de guerra. - Pretende dar cobertura logística às denúncias com volantes e folhetos, embora se cogite até de um jornal. - Assim, os QGs mais importantes, de Curitiba e Londrina, estariam alimentados. Objetivo é dar esse tom guerreiro onde houver condições para que a militância volte a agir. - Tanto em Curitiba como em Londrina há a questão do ibope elevado do prefeito como fator neutralizante: na capital a degradação do governo, atos de improbidade, e a quebra financeira facilitam denúncias, e em Londrina as apurações em andamento do Ministério Público constituem a base da ofensiva. - Idéia da grave crise comercial está num edital da Fazenda Nacional de execução de um armarinho em Rebouças aparecendo, como bens penhorados, fitas cassete, meia centena de CDs. Impressão que se dá é que o valor apurado mal cobre custos do edital. - A corrente corporativista da Assembléia tendia a dar apoio ao deputado radialista de Cascavel contra o tenente coronel Airton Lino da Silva. Aí quem interveio foi o Geraldo Cartário, em favor do militar, sob a alegação forte de que é seu parente. Quando o argumento corporativo decide, nada como um pouco de ação familiar. - A propósito: se o governador mudasse o comando, como fez com o delegado de Polícia, tinha que pular fora do Palácio. Seria um exagero insuportável, pior do que a demagogia do acampamento sem-terra. - Dois conselheiros do Tribunal de Contas e mais uma figura do escalão íntimo do governo fazem um cruzeiro de turismo. - Bancada do PT está fazendo estudo sobre o impacto nos custos de produção da aplicação do pedágio. É nova ofensiva, de caráter preventivo, para ‘‘minar’’ o reajuste pesado, superior a 100%. - Festa hoje em Londrina é do PSDB, que recebe Alex Canziani diante dos cardeais Alvaro e Osmar Dias e Luis Carlos Hauly.
FOLCLORE O Bar da Pedra, Avenida Rio de Janeiro, Londrina, era ponto de encontro de corretores de terra, de café e aventureiros. Era o ano de 1947. Pára um jipe Land Rover e dele sai uma figura estranha carregando pacotes, que senta numa das mesas e começa a beber sozinho. Pega um dos pacotes e vai ao WC e logo depois a porta se abre e o cidadão sai com um embrulho amarrado na parte traseira do cinto e chutando gritava: ‘‘Vem atrás de mim, desgraçado. Passei a vida lhe perseguindo, agora é você que vem atrás de mim.’’ Foi a festa: o pacote de dinheiro se desfazia pelo chão, fazendo o Papai Noel inesperado.
CROMO A estrela caiu, e com a rapidez de um raio cósmico veio o desejo que parecia menos possível que o fenômeno, mas tão distante.
AFORÍSTICO Quando se pensa que se vai derrubar o governo, ele que nos derruba.

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