Sob o domÍnio do medo
Não se pode negar que um dos maiores problemas da atualidade brasileira é a violência, não apenas urbana, mas também a violência no campo. As pesquisas têm demonstrado cada vez mais que, não apenas as grandes e médias cidades, mas também os pequenos centros urbanos têm experimentado um aumento exacerbado da criminalidade. Tem-se assistido cada vez mais os efeitos de atos violentos, com ou sem razão a todos os segmentos sociais. Antes, a violência ficava restrita aos guetos, favelas e bairros de maior concentração da pobreza. Agora está havendo uma socialização, ou melhor, está ocorrendo uma distribuição deste fenômeno nas diferente camadas sociais: entre os ricos, os de classe média, os pobres e os mais pobres.
A olho nu, é constatável que a sociedade está sob o domínio do medo. Os ricos passaram a ter medo de ser sequestrado e ter que levantar uma fortuna para pagar o resgate de uma hora para outra; medo da chuva, por causa do engarrafamento; do pneu furar tarde da noite; de ser levado como refém em um assalto; de ser levado para um hospital público, em caso de acidente; de ter seu condomínio fechado invadido por bandidos; de andar em carros que não sejam blindados; medo de continuar morando no Brasil etc.
A classe média, com medo de ser confundida com sequestrável; de não ter dinheiro para pagar o aluguel; de ter que passar o filho para a escola pública, por falta de dinheiro para a mensalidade; de arrastão; de não poder pagar o plano de saúde e ter que procurar o SUS, porque sabe que terá que esperar na fila da emergência; medo de não ter dinheiro na carteira para entregar ao assaltante; de bala perdida; de morar perto da favela, etc. A classe pobre, medo da polícia invadir sua casa atrás de bandidos; de perder o emprego; de que o filho trabalhe para os traficantes; da chuva, por causa do desabamento; de andar de ônibus, por causa dos frequentes assaltos; de ser roubado no dia do pagamento; medo de ficar doente e ter que peregrinar por vários hospitais atrás de uma vaga; quando não ficam até seis meses aguardando por uma consulta junto ao SUS; de tiroteio entre polícia e bandido; entre bandido e bandido; medo dos sequestro relâmpagos quando são levados aos caixas eletrônicos; etc.
Os mais pobres ou aqueles que não têm nada a perder, a não ser a vida, passaram a ter medo de serem queimados vivos enquanto dormem embaixo dos viadutos e nas calçadas; de serem recolhidos arbitrariamente e levados para abrigos que mais parecem presídios e asilos etc.
Em suma, a inadimplência do setor público na área de segurança gerou esta certeza de desamparo, insegurança, medo e abandono que permeia todas as relações sociais. As classes abastadas buscam proteção atrás das grades, transformando casas e edifícios em verdadeiros fortes, mas e as camadas pobres que ficam expostas a sua própria sorte? Em ano eleitoral, é preciso estar atentos para que candidatos irresponsáveis não sejam (re) eleitos às custas do medo e do desespero dos indivíduos. Com a palavra aquele que tem o voto: o eleitor.
- FRANCISCA VERGÍNIO SOARES é professora titular de Sociologia e Política na Universidade Cândido Mendes (RJ) e doutora em Ciências Sociais





