Todo governante que enfrenta forte queda de popularidade sonha com a trajetória do balanço. É a trajetória que propicia, num primeiro momento, uma descida, seguida da manutenção da imagem em nível baixo, por algum tempo, e, no momento oportuno, uma subida que recupera a posição perdida, sem chegar, no entanto, ao ponto limite de recuperação. A história política registra muitos casos. Quando governava a Bolívia, Paz Estensoro implantou um plano econômico, sob o comando do ministro Sánchez Losada, que freou uma inflação de 30.000% ao ano. O plano tinha a oposição de forças organizadas e da maioria da população. O candidato do governo, o próprio Sánchez, obteve a maior votação nas eleições presidenciais do país. Foi um exemplo da trajetória do balanço.
Eleito e reeleito com as graças do Plano Real, Fernando Henrique depara, hoje, com a maior queda de popularidade. A menos de um ano e meio das eleições, vivendo a maior crise de seus dois mandatos, FHC tateia a procura de um rumo, enquanto uma grande interrogação percorre as mentes políticas: conseguirá ele reverter o processo de desacumulação de força? A resposta é dada pelas variáveis estratégicas da política. Primeira variável: a eficácia do plano para administrar o racionamento de energia. Esta variável influenciará seguramente o manejo dos três cinturões do governo – o político, o macroeconômico e o de articulação de problemas.
A premissa central é a de que o sucesso do plano, reconhecido pela população, fará que ela esqueça a imprevisibilidade da administração, e passe a apoiar o governo, estancando o processo de descolamento político das bases governistas e permitindo a manutenção das diretrizes gerais do programa econômico. Fernando Henrique voltaria ao comando do processo político, reforçaria o patamar de governabilidade, em condições de agregar forças em torno do candidato governista no pleito de 2002. Outras variáveis, porém, entram no dramático intercâmbio de problemas: o momento, o tempo de duração do plano, a perícia do governante, a motivação dos atores envolvidos no problema, as pressões ambientais, o discurso dos candidatos oposicionistas, o poder da mídia, enfim, um conjunto de fatores que determinará o nível de pressão, distanciamento ou engajamento da opinião pública.
Uma questão fundamental: são viáveis as operações do plano de racionamento para gerar resultados no curto prazo? A reta final para saída de um partido e ingresso em outro é 5 de outubro, um ano antes da eleição. Se houver uma debandada geral da base governista até aquela data, o governo se verá enfraquecido no Parlamento, mesmo que não haja decisões importantes em termos de mudança constitucional. O Executivo ficará refém do Legislativo e qualquer passo em falso abrirá frentes imprevisíveis de luta. Possui o mandatário-mor da República condições efetivas para tomar decisões tempestivas e oportunas? Quem conhece a personalidade do presidente, responde com um sonoro não. O presidente é tíbio, gosta de empurrar decisões. O vetor perícia, portanto, é uma ameaça ao plano. Outra questão se relaciona ao conflito de interesses, pontos de vista e motivações dos atores envolvidos, cujas divergências podem prejudicar a eficácia geral.
Governar, ensina a ciência política, é encarar os problemas de frente. Postergá-los aumenta o custo futuro de lidar com eles. FHC evitou tratar o problema da energia no tempo adequado e está pagando um custo que poderá inviabilizar a vitória de seu candidato em 2002. Um desarranjo forte no cinturão político será drástico para a base de alianças do candidato situacionista. O insucesso do plano de racionamento alterará os vetores de suporte e equilíbrio do próprio Plano Real, acarretando desvios na gestão macroeconômica. E os efeitos das distorções se projetarão sobre o cotidiano da população, afetando, ainda mais, os serviços de sa© úde, água, lazer, segurança, telefones, energia, transporte e educação.
Que isso seja apenas conjetura e mau pensamento. Longe da tão indesejada fracassomania, tão combatida pelo presidente. Apostemos em suas qualidades e valores incontestáveis, em seu civismo e até na visão estratégica. Rezemos por suas ótimas intenções e até nos convençamos que é correta a férrea vontade de administrar a crise dentro dos Palácios de Brasília, bem distante das lamúrias da população. É bom sonhar com coisas agradáveis. Nesses tempos turbulentos, convém acreditar em milagres. Inclusive dos dois santos de nome Pedro, um, guardião das chaves do céu, capaz de abrir as torneiras e fazer chover torrencialmente, mesmo em setembro, por 40 dias e 40 noites, e o outro, o nosso São Pedro Malan, aquele que promete solução muito breve para a crise. Diz um ditado: de dentro das mesmas grades, dois homens olham para fora. Um vê o lixo, outro, as estrelas. Sob as bênçãos dos nossos santos de devoção, oremos e olhemos para o céu estrelado.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor universitário titular em São Paulo, cientista e consultor político
[email protected]

mockup