Na contagem regressiva do mandato, o ministro da Justiça, Paulo de Tarso Ribeiro, foi há cinco dias à Câmara dos Deputados, que promoveu um seminário sobre o crime organizado, e disse que ''o sistema nacional de oferta de justiça para a população brasileira está em colapso''. Para dar exemplos de impunidade, disse que no País estão sendo cometidos 53 ''homicídios violentos'' (e existe assassinato que não seja violento?) para cada grupo de 100 mil habitantes. ''Polícia barata é polícia ruim'', arrematou. Há quatro dias, promotoras do Rio de Janeiro, no mesmo seminário, desfilaram um rol de barbaridades dentro e fora das prisões. Na mesma esteira, falou um capitão da PM de Mato Grosso, que pediu um mandado de busca e apreensão e um juiz de Cuiabá não quis conceder, ''porque tem família para cuidar''. O crime triunfa. No Brasil de 54 milhões de pessoas pobres, conforme divulgou o IBGE, o que quer dizer 32% da população, chegou mesmo a hora de, à semelhança de certos estabelecimentos comerciais, começar muita coisa nova, esticando a alentadora faixa ''sob nova direção''.
O governador eleito do Paraná, Roberto Requião, esteve em São Paulo e disse muita coisa sobre o que pretende fazer, em entrevista na TV à Rede Vida. Enfatizou a necessidade de oferta de emprego e investimento maciço na educação. E falou cobras e lagartos sobre a segurança pública. Sem meias palavras, mencionou terríveis focos de podridão nas Polícias, mais na Civil e menos na Militar, e garantiu que essa será uma de suas prioridades de governo. Caso não consiga encontrar o homem de pulso ideal para a assumir a Secretaria da Segurança até 1º de janeiro, disse que assumirá a função, cumulativamente, até encontrar a desejada pessoa certa para o lugar certo.
No caso do tráfico de drogas, por exemplo, afirmou que a Polícia Civil está infestada e que pode acontecer de alguém entrar numa delegacia para fazer uma denúncia e ter o azar de deparar-se com um chefe de quadrilha. Mais: policiais mencionados na CPI do Narcotráfico continuam trabalhando normalmente. Criticou a privatização estadual de presídios, ''sem concorrência'', sugerindo que existe gente pensando em desfrutar de prisão especial imaginando o que vai acontecer quando ele assumir o Governo.
Enquanto Requião falava, lembrava-me da cândida figura do atual secretário, José Tavares, peixe fora d'água nesse aquário monumental. Nunca deu muito certo essa história de você defender direitos humanos hoje e trabalhar com a Polícia amanhã. Aliás, cá entre nós, é o drama do antropólogo Luiz Eduardo Soares, que vai palpitar nessa área para o Governo de Lula. Fez a mesma coisa no Rio de Janeiro. Sentava a pua na Polícia e se esquecia de um pequeno detalhe: era o subsecretário da Segurança Pública. Dançou, naturalmente.
O diagnóstico Requião foi incômodo, de um lado, para os paranaenses. Ficou claro que pela perspectiva acenada pelo governador eleito serão necessárias amputações e intervenções cirúrgicas graves. Mas, de outro, acena-se com a esperança da profilaxia moral, restaurando uma máquina de importância decisiva para, ao lado do investimento nas políticas públicas, colocar o crime e a violência fora da escala dominante atual, que projeta medo e indignação.

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