Um país que vive sob a sombra do medo. Assim é a rotina dos norte-americanos. Desde o atentado da madrugada do dia 11 de junho, uma série de questionamentos em torno da conduta do governo veio novamente à tona no Estados Unidos. A ação de Omar Mateen, americano muçulmano de origem afegã de 29 anos que invadiu uma boate gay e matou 49 pessoas, já é considerada o mais grave ataque contra a comunidade LGBTQ (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e simpatizantes) já visto nos EUA. Também é o ato terrorista mais impactante desde o 11 de Setembro.
A polícia americana ainda investiga as circunstâncias e motivações do massacre, mas, para representantes da comunidade homossexual, o ataque é, antes de uma ação terrorista, reflexo da propagação da homofobia. Em todo o país, o temor da comunidade gay de que novos ataques possam acontecer cresce a cada dia.
Especialista em relações internacionais e gestão de conflitos, o professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Yann Duzert acredita que o caminho para a redução da violência é aceitar as diferenças entre comunidades, incluindo as religiosas. Em relação ao terrorismo, ele explica que países como o Iraque e Líbia ficaram enfraquecidos depois por conta de anos de guerras, dando mais espaços para máfias locais. "Então, como as comunidade muçulmanas se integram por identidade religiosa, a chamada ‘solidariedade entre irmãos’, buscam vingar aqueles bombardeados por ocidentais. Há, assim, um problema advindo de hostilidades a ditaduras com e sem petróleo (que representam ‘riscos terroristas’ para os produtores da ‘commodity’), revelando interesses que vão além dos divulgados", esclarece.
Para o professor, o massacre tende a provocar também uma mudança de direção nos discursos dos presidenciáveis Hillary Clinton e Donald Trump, já que serão mais cobrados pela população a colocarem em prática ações mais eficazes de combate ao terrorismo.
Duzert comenta ainda que o Brasil pode ser alvo de possíveis ataques, justamente por sediar daqui a poucas semanas o maior evento esportivo do planeta: os Jogos Olímpicos, no Rio de Janeiro. "O marketing do terrorismo é implacável. Eles querem se mostrar onde tem impacto de visibilidade e de medo maiores", salienta o especialista.
Para ele, no Brasil, a situação também é crítica quando o assunto é violência contra os homossexuais. Segundo dados do Grupo Gay da Bahia (GGB), que há 30 anos monitora agressões contra homossexuais no País, 318 homossexuais foram mortos no Brasil em 2015, uma média de uma morte a cada 28 horas. Devido a esses números, o País é o local onde mais se assassina homossexuais no mundo. "A violência existe também no Brasil de outras formas e o terror é real", comenta.

Quais reflexos um atentado como o da boate de Orlando pode trazer aos Estados Unidos?
Primeiro uma demanda do eleitorado, do cidadão, de maior proteção do Estado. Em vez de defender o Estado através do poderio militar, fora das fronteiras, no Iraque ou no Afeganistão, haverá uma reivindicação, uma pressão sobre os políticos para fortalecer as defesas das cidades. Fazer uma "parede", como (Donald) Trump sugere, que tentará limitar as imigrações e oferecer um controle maior, além de medidas para proteger melhor o cidadão, com trabalhos de inteligência que vão gerar uma indústria bélica de defesa focada no cidadão americano e não no ataque militar a outros países.

O assunto terrorismo também entrará mais fortemente na pauta da disputa para a presidência americana. O que isso pode mudar no cenário eleitoral?
Pode ter, pela parte do Donald Trump (candidato do Partido Republicano), um movimento que será muito mais belicoso e protecionista ao mesmo tempo. Vai aumentar um pouco o lado do patriotismo e da direita. E talvez a Hillary (Clinton, candidata pelo Partido dos Democratas) também terá que mostrar um autoritarismo protetor, um discurso um pouco mais forte do que apenas de abertura do comércio, relações pacíficas, que eu chamaria internacionalismo, multiculturalidade. Deverá ter um discurso um pouco mais duro a favor de proteção e autoridade.

O atentado pode servir de exemplo também ao Brasil, no momento em que o país se prepara para organizar os Jogos Olímpicos? Como esse episódio pode influenciar neste evento?
Obviamente pode influenciar. O marketing do terrorismo é implacável. Eles querem se mostrar onde têm impacto de visibilidade e de medo maiores. Então todos os eventos, como foi a Maratona de Boston (onde um atentado deixou três mortos e 264 feridos no dia 15 de abril de 2013), podem ser objeto do espetáculo do terrorismo. E os Jogos Olímpicos terão os olhares do mundo e serão um ponto de atenção muito forte. Então não deixa de existir uma probabilidade e um risco de que um ataque ocorra.

O senhor considera o Brasil um possível alvo de radicais muçulmanos? Por quê?
O Brasil mostra o prazer de viver, a liberdade da feminilidade, da homossexualidade, prazer de uma religião pagã, o politeísmo, e isso representa um ponto de negação, de ódio, da parte daqueles terroristas. Então, de fato, pelo modo de vida, pelo jeito de ter leis que permitem todo o contrário, pode ser que o Brasil se torne alvo dos radicais religiosos muçulmanos.

O que é necessário fazer para combater esse tipo de ação?
Cada vez que uma bomba do Ocidente cai em algum país muçulmano existe um ressentimento, uma solidariedade. Mais de 4 milhões de muçulmanos já morreram vítimas de bombardeio desde o Iraque, e isso provocou uma onda de desejo de vingança. Teria que ter um trabalho dos muçulmanos a obter uma leitura do mesmo corpo do texto do Alcorão, mas de reconhecer o valor de um islã pacífico, de coexistência republicana, onde as mulheres podem existir e a liberdade de amar pode existir. As religiões têm de fazer um trabalho de casa, dentro do Estado fazer seu papel, e não ser politizada, assim como também uma leitura modernizada. Cada religião deveria se libertar dos dogmas de programação secular para poder ser laica republicana, separando a religião do Estado.

O que o senhor sugere que deve ser feito para que o Brasil não registre casos de terrorismo como esse ataque que ocorreu nos Estados Unidos?
Ensinar na pré-escola, ter um mecanismo de enquadrar crianças abandonadas, ter uma capacidade cognitiva melhor e desde a juventude ensinar o múltiplo jeito de ser, as múltiplas identidades e o reconhecimento das diferenças. Aceitar que o outro pode ser de outro bairro, ter outro clube de futebol, outra religião. A base de tudo é essa aceitação das diferenças. Isso vai permitir que cada mal-entendido não se torne um ódio ou conflito, e sim uma riqueza. Essa educação, que passa pelos jovens, desde a primeira idade até a faculdade, é justamente ter capacidade moderna de negociar, a chamada "newgotiation", que quer dizer "ganha-ganha". Significa respeitar as identidades, trabalhar as percepções e se enriquecer com a diferença do outro. É tudo uma cultura que se pode ensinar.

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