Quando da morte do ministro das Comunicações Sérgio Motta e, posteriormente, do líder do governo na Câmara, Luís Eduardo Magalhães, não faltaram avaliações de que o processo de reeleição do presidente Fernando Henrique Cardoso estaria comprometido. Os dois funcionavam como colunas de sustentação do governo. O primeiro, articulador meticuloso dos interesses governamentais no Congresso e o segundo, engenheiro de todas as engrenagens que deveriam funcionar azeitadas durante o processo eleitoral. Morreram - as pessoas têm este costume imbecil, o de morrer. Mas, aparentemente, o governo ficou pouco abalado em seus alicerces. Logo arranjaram-se substitutos. Depois do nebuloso mês de maio, quando tinha sua popularidade em níveis insatisfatórios, FHC retomou as rédeas e voltou a governar como antes, de Brasília para o mundo, poucas vezes ousando baixar os olhos para os horizontes tropicais.
Fernando Henrique, pelas últimas pesquisas de opinião, dá um passeio sobre sua combalida e atordoada oposição. O candidato do Partido Popular Socialista (PPS), Ciro Gomes, considerado o mais perigoso para FHC pelo Planalto, não reage nas pesquisas. Podemos considerar vários problemas que atrapalham a candidatura de Ciro. Inicialmente, temos o seu partido, nanico, quase sem representatividade e pouco enraizado na sociedade. O PPS foi forjado pelo senador pernambucano Roberto Freire nas bases do antigo PCB. Freire ganhou o partido, mudou a sigla e surfou na maionese ao propor o que ele chama de novo socialismo, arejado, e que não passa de um arremedo da social-democracia com pitadas da safadeza neoliberal. De socialista, o PPS só tem o nome. Os militantes comprometidos com a classe operária não aceitaram a nova legenda, uma parte migrou para o PT e PCdoB e a outra tornou a reorganizar o PCB. Ciro também não conseguiu ampliar o leque de apoio necessário para a empreitada de se tornar presidente. No processo de costura das candidaturas anterior à campanha, ele ficou perdido entre os partidos de centro e de esquerda. Terminou isolado. Pesa sobre Ciro Gomes a arrogância de um jovem que já esteve lá, que fez parte do banquete e que agora quer um jantar só para ele. O candidato do PPS nega, mas lembra em seus rompantes, principalmente em contato com a imprensa, mal comparando, o ex-presidente Fernando Collor.
O PMDB é de dar dó. A grande força de resistência contra a ditadura não passa hoje de um amontoado de interesses paroquiais. Há lá os resistentes, o pessoal do MR-8 e os peemedebistas autênticos. Mas também eles já se dobraram ao óbvio: do nada pouco se pode tirar. O que já foi um dos maiores partidos do ocidente nem candidato próprio a presidente possui.
O Partido dos Trabalhadores, nascido nas bases operárias no final da década de 70, insiste em erros e de forma contínua. Lula está no seu terceiro vestibular para presidente em 9 anos - e pelo que parece mal preparado novamente e pode levar bomba. Em sua última passagem pelo Paraná, faltava nos olhos de Lula o lampejo de alguma esperança na vitória. Tudo e o tempo tramam contra ele. Menos a experiência, que mostra ao candidato petista o pouco ainda a ser feito. Lula criou o dragão e hoje, adulto, o animal tenta tostá-lo. Em Londrina, ele e Leonel Brizola, seu vice, ficaram boa parte do tempo tentando passar pela barreira dos candidatos locais de seus respectivos partidos. Cada um queria tirar proveito a seu modo. Enfim, alguns candidatos a deputado do PT, agem como se estivessem num partido fisiológico, muito mais preocupados com o próprio umbigo. Se Fernando Henrique peca por não olhar para nosso horizonte, alguns candidatos petistas se danam por nem tentar vê-lo, o umbigo é suficiente.
Pior do que a morte física é a morte do espírito. De fato, falta às oposições e, principalmente ao PT, o espírito de outras épocas. Tempo em que o partido fazia campanha sem reclamar da falta de dinheiro e que seus militantes estavam nas ruas. Boa parte de seus combativos dirigentes sindicais está escondida atrás da burocracia em prédios bonitos, até mesmo luxuosos, construídos por suas categorias. Cobram mensalidades, mas são incapazes de imprimir um único panfleto para denunciar o fim dos direitos sociais e trabalhistas provocado por FHC. Além do sindical, todos os movimentos sociais estão apáticos. As lideranças tratam seus comandados como ‘‘lumpenproletariat’’. Defendem seus interesses e se esquecem da formação política, da formação do cidadão. Não é à toa que a Força Sindical, comandada por arquipelegos, encontra um campo vasto na organização dos trabalhadores e no apoio descarado ao governo.
Nos próximos 50 dias, resta às oposições, já não mais como esperança, mas como desespero, o milagre da multiplicação dos votos. O duro é saber que não dá para contar muito com os santos que estão por aí - tudo indica que eles são situacionistas.
- JOSÉ FERNANDO DA SILVA é jornalista da Folha em Londrina.

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