Gay assumido desde 1977, o antropólogo Luiz Mott, 60 anos, professor titular da Universidade Federal da Bahia e fundador do Grupo Gay da Bahia, é um decano do movimento homossexual brasileiro. Para Mott, que esteve na cidade para participar do 3º Encontro para Reflexões sobre Homossexualidade, na Universidade Estadual de Londrina (UEL), 10% da população brasileira é gay. Nesse universo de 18 milhões de pessoas, segundo ele, apenas 10% ''saiu do armário''.

Em entrevista à FOLHA, Mott diz acreditar que, apesar dos passos adiante, nem tudo são flores. ''A mesma sociedade que aplaude e elege Roberta Close como musa inspiradora, que sabe sobre a opção sexual de muitas das cantoras baianas e convive com os gays e travestis no Carnaval, no dia-a-dia não é tão cor de rosa, é vermelho-sangue. Os assassinatos são uma calamidade nacional''.


Como o senhor avalia a atual situação da homossexualidade no Brasil?

Houve uma melhora nos últimos dez anos, sobretudo por pressão do movimento homossexual organizado. Atualmente, existe a Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Travestis (ABGLT), que reúne mais de 150 grupos de norte a sul do Brasil. Infelizmente, em Londrina, ainda não existe nenhum grupo. As paradas, que se realizam em todas as capitais, bem como a mídia, que está cada vez mais cuidadosa em evitar termos preconceituosos, são pontos positivos. O Governo, com o programa ''Brasil Sem Homofobia'', que mobilizou dez ministérios e mais de 50 ações afirmativas visando a cidadania dos homossexuais, também. Porém, há uma grande praga que existe na sociedade brasileira que são os crimes contra homossexuais. A cada dois dias, um gay, lésbica ou travesti é barbaramente assassinato e isso, até agora, não conseguimos nem erradicar nem diminuir.


Como combater a homofobia?

Cursos de educação sexual, a visibilidade das paradas e a abertura das universidades para que os educadores sexuais tenham mais informação sobre a homossexualidade são boas sugestões. Homofobia não rima com academia.


Em Curitiba, o prefeito vetou o Dia Municipal Contra a Homofobia, que seria em 17 de maio. Como o senhor encara isso?

Há pessoas e instituições que nadam contra a maré e não se sensibilizaram de que os homossexuais não buscam privilégios, mas tentam igualizar os direitos já concedidos e confirmados para outras minorias. Direitos humanos são universais e os homossexuais, como seres humanos, mesmo que condenados por algumas igrejas mais intolerantes, devem ter segurança, liberdade de ir e vir, e acesso a instituições, inclusive ao Exército, onde ainda existe muita repressão. No caso de Curitiba, a Câmara de Vereadores mostrou-se afinada com a tendência do Brasil e do mundo, ao sugerir o projeto. O prefeito, certamente por uma orientação ou assessoria mais conservadora e fundamentalista, vetou. Mas esperamos que essa situação seja revertida.


Como o senhor encara a postura da Igreja?

A Igreja deve pedir perdão aos homossexuais. Há uma dívida histórica. Deus não rotula as pessoas e nos dez mandamentos não há um que diga ''É proibido ser homossexual''. Igreja, pastores e demais, com as atitudes que têm, deram munição para a intolerância.


O senhor sempre diz:''Precisa ser muito macho para ser bicha''. É isso mesmo?

As feministas talvez não gostem muito dessa ênfase na machidão como elemento positivo. Mas, numa sociedade em que muitos pais dizem preferir ter um filho ladrão a homossexual, ou uma filha protistuta a lésbica, é necessário enfrentar muitos preconceitos, dar muito murro em ponta de faca para assumir o que no mundo já é uma realidade: eu sou gay e é legal ser homossexual.

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