SO PEDRO NA BERLINDA - Desastres serão cada vez mais destruidores
PUBLICAÇÃO
sábado, 16 de fevereiro de 2013
Lucio Flávio Cruz<br>Reportagem Local 
Chuva intensa, furacões, ondas de calor, frio extremo. Em 2012, eventos climáticos extremos foram rotina. E em 2013 o panorama não está sendo diferente. Tragédias no Rio de Janeiro e incêndios florestais na Austrália são alguns exemplos de como os desastres provocados por mudanças do clima também serão comuns este ano.
Para o pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Jean Ometto, o problema merece mais atenção do poder público, em todas as instâncias, uma vez que o despreparo das cidades para lidarem com essas situações está cada vez mais evidente. "As ações para diminuir o impacto das mudanças ambientais não estão sendo suficientes. Quando olhamos globalmente chegamos à conclusão que não estamos fazendo a lição de casa", alfineta.
E a situação, acrescenta Ometto, é preocupante, até porque o que os especialistas estão verificando é a recorrência desses fenômenos, que está cada vez mais destruidores. "Quanto mais intensa for a frequência, maior a probabilidade de estar ocorrendo uma mudança no padrão climático do planeta", alerta. E é exatamente isso que pode estar acontecendo em escala global.
Os eventos climáticos extremos serão cada vez mais frequentes?
Há uma expectativa que sim. Todos os esforços de pesquisa e monitoramento têm sido feitos justamente para entender a frequência destes eventos. Há uma variabilidade natural de eventos climáticos no planeta, inclusive de eventos climáticos extremos. O que nós temos de entender é que a frequência e a intensidade dos eventos estão aumentando. O que a princípio nos leva a imaginar é que com a situação atual das mudanças ambientais do planeta esses eventos passem a ser mais prejudiciais, danosos e com uma abrangência maior do que se tinha no passado.
Em 2012 tivemos vários eventos extremos no mundo como o pior inverno na China nos últimos 30 anos, a Austrália registrando as temperaturas mais quentes da história, no Brasil, durante a primavera, foram registrados recordes de temperatura, o furacão Sandy nos Estados Unidos. Foi um ano atípico?
O que os estudos devem indicar é que o ano passado foi um dos mais quentes na média da temperatura da história dos últimos 100, 150 anos. Quando um evento é considerado o mais dramático dos últimos 30 anos, a base de comparação é muito pequena. Imagine o que são 30 anos na história do planeta. Isso é muito pouco. O que a gente está buscando é a frequência desses eventos.
Por exemplo, tivemos uma seca muita intensa no Nordeste no ano passado, agora a seca no Norte de Minas Gerais é a mais intensa dos últimos 40 anos. Se daqui a dois anos tivermos uma seca da mesma intensidade isso quer dizer que os eventos estão se tornando recorrentes e isso é muito importante. Temos que avaliar a recorrência desses fenômenos. Quanto mais intensa for a frequência, maior a probabilidade de estar ocorrendo uma mudança no padrão climático do planeta.
O que temos de forma clara é que há uma alteração profunda em vários processos que a gente chama de mudanças ambientais e que as mudanças climáticas advêm delas. Quando temos uma quantidade de energia maior no sistema, a atmosfera está mais aquecida e os processos são mais intensos, teoricamente. Então podemos passar a ter eventos extremos com mais frequência sim.
Os países e as cidades estão preparados para esses eventos climáticos cada vez mais frequentes?
De maneira geral não. O mundo é uma distribuição dos riscos associados e a composição urbana é muito diferente no mundo todo. Algumas cidades estão mais bem preparadas que outras. Na passagem do furacão Sandy, Nova York ficou sem energia por vários dias, com situações de alagamento traumáticas. E é uma cidade em um país com desenvolvimento econômico e social bastante elevado e mesmo assim enfrentou sérios problemas. O que certamente a humanidade vai ter que fazer é repensar a sua ocupação do meio. Isso é muito claro nas encostas da Serra do Mar, sobretudo, nos Estados de São Paulo e Rio de Janeiro. A ocupação das encostas é toda de natureza inadequada. Com eventos mais intensos e com uma frequência maior, essa ocupação que já é inadequada se torna um problema muito sério. A ocupação do solo tem que ser repensada diante de eventos como esses. Isso também vale para a elevação do nível do mar, transbordamento de rios e outros tantos exemplos.
Se Nova York não está preparada, o que falar sobre as cidades brasileiras? Qual o nível de estrago que um evento climático extremo pode causar no País?
A ocupação do solo no ambiente urbano não é planejada no Brasil. O que a gente vê com frequência grande são situações advindas de eventos extremos que prejudicam de uma forma absurda a população, inclusive com situações trágicas de mortes. Uma boa parte disso é justamente o reflexo de ocupação inadequada do solo. As cidades têm que se preparar com planejamento urbano e educando a população.
O aumento do número de desastres climáticos é consequência do aquecimento global?
O aquecimento global é uma forma de expressar uma alteração na composição da atmosfera. Existe uma variabilidade natural no sistema e ela faz com que o planeta consiga se adaptar à mudança, por exemplo, na composição da atmosfera. Essa variação tem sido muito intensa. E isso pode determinar um aumento nas temperaturas médias do planeta. As informações que temos consolidadas por vários estudos é que neste último século a temperatura média aumentou. E isso se associa a uma mudança de composição da atmosfera. Os eventos climáticos estão associados a dinâmica na atmosfera, se a composição muda, há alteração do balanço de energia, que fica mais intensa. Podemos dizer que teremos eventos extremos mais frequentes. O que a gente hoje não pode dizer é que um determinado evento climático, por exemplo, uma chuva intensa na Serra do Mar, esteja particularmente associada a mudança climática ou ao aquecimento global, temos que avaliar dentro de um contexto histórico de frequência e intensidade.
Qual o impacto da atividade humana, com o nível de consumo que se tem hoje, nas transformações climáticas?
Há uma influência determinante do ser humano nas mudanças ambientais. Isso é muito claro. Temos que deixar claro que as pessoas não são ruins para o planeta, muito pelo contrário. Nós queremos ter o planeta para ficarmos aqui. O uso muito intenso, o consumo, o sobreuso dos recursos naturais, sejam eles de combustíveis fósseis, da agricultura, da água, limita o meio ambiente. Temos que ter claro que o ser humano tem uma influência no meio. Um exemplo claro disso é quando não se trata esgoto, que não tem nada a ver com mudança climática. Mas quando você deixa de tratar, se destrói todo um sistema aquático que é o rio. Você pode ter problemas para tratar esta água, que vai ficar mais cara para o consumo.
Hoje entende-se que uma boa parte das mudanças está associada às atividades humanas. O uso de combustíveis fósseis, por exemplo, determinou uma mudança na composição da atmosfera nos últimos 100 anos. Isso a gente pode atribuir ao ser humano. E outras coisas também, como a expansão da agricultura, desmatamento, poluição de rios, da atmosfera, ilhas de calor em meio urbano. Eles têm escala global? Sim. Hoje temos estoque de peixes nos oceanos reduzidos por ação muito forte do homem.
É certo que teremos muitos eventos climáticos extremos em 2013?
A possibilidade existe sim, a gente não consegue dizer a intensidade dos eventos, mas que nós teremos este ano, teremos. A ocorrência é fato.


