O ano que se encaminha celeremente para seu término não trouxe consigo o fim do mundo, como algumas pessoas imaginaram. Mesmo porque, a divisão daquilo que chamamos de tempo foi por nós convencionada para podermos chegar na hora certa ao dentista ou tomar o trem das 2. Mas em que pese não terem se confirmado as profecias, 2000 está sendo um período encrespado por forças da natureza que atuaram de modo mais enfático em diferentes partes do Planeta através de chuvas torrenciais, verões tórridos, invernos excessivamente glaciais, tornados tenebrosos, furacões furiosos, vulcões crepitantes e tudo o mais que fustiga o homem fazendo-o se sentir desprotegido e apavorado diante dos gigantescos fenômenos naturais, que nem por isso quebram sua soberba e sua mania de grandeza. Entrementes, o sol entra na fase das tempestades, fazendo o universo circundante reverberar sob a potência de sua energia atômica que se expande no ritmo binário de vida e morte.
Além dessas circunstâncias inevitáveis, neste período que entendemos como último ano do milênio aconteceram por força do destino ou da incompetência (nunca se sabe qual dos dois fatores atuam), grandes desastres aéreos, terrestres e marítimos, sendo que a tragédia do submarino russo que jaz no fundo do mar como túmulo de jovens marinheiros, foi a marca mais triste deste 2000 que se esvai anunciando o natal entre lâmpadas chinesas e bolas coloridas.
Indiferente a tudo passa o tempo sobre o bem e o mal, e na cidade onde vivo os flamboyants floriram, estando a gotejar pétalas vermelhas sobre as ruas num alerta de beleza, vida exuberante e harmonia. Estas árvores estão querendo provar que os ciclos se renovam perenemente funcionando como atestados de eternidade, esse para sempre que não cabe na pequenez de nossa compreensão.
Talvez, por isso, os flamboyants que floresceram nos confins de minha infância continuem intactos através dos que agora vejo, e que na sua magia alegre e avermelhada em contraste com o azul do céu parecem querer dar testemunho do eterno que nos escapa.
A par da natureza tumultuada e das tragédias que o homem se inflige por toda a parte do mundo, alterações seguem também em ritmo acelerado no Brasil, na esfera da política as eleições providenciaram o rodízio do poder e, assim, novos timoneiros já se preparam para manobrar barcos que podem naufragar, encalhar ou navegar a contento para portos seguros. Alguns desses kybernets (palavra grega de onde provém o vocábulo governo) navegaram sobre o mar de lama da corrupção, hoje mais evidente, e sobressaíram-se como novos comandantes sobre os que foram apeados de seus cargos para serem jogados no oceano do opróbrio.
Mas terá mudado a sociedade brasileira a ponto de não suportar mais os desmandos das elites do poder? Será que nos tornamos um povo íntegro, que se comporta de forma estritamente honesta a partir de uma moral irrepreensível? Afinal, temos uma trajetória secular onde a corrupção foi presença constante entre governantes e governados, e nossa moral dúbia sempre disfarçou as essências sob o véu conveniente das aparências. Será que apesar deste lastro deixamos de ser o País do dá-se um jeito, pátria de Macunaíma (o herói sem caráter), terra do viva e deixe viver?
Que pensem sobre tais questões os leitores que se dignarem a passar os olhos sobre essas linhas, pois de minha parte não pretendo formular receitas nem apresentar respostas acabadas ao dilema formulado. Afinal, somente cada consciência, na sua individualidade e a partir de sua experiência, e de seu nível de compreensão, pode distinguir caminhos, apontar soluções, partir para escolhas, chegar a convicções, crer ou duvidar.
Assim sendo, e diante de tema tão intricado, ainda ouso lançar mais três indagações: A onda de moralidade que se abateu sobre a Nação é realmente fruto da ética e da consciência cívica do povo? Apenas produto de interesses de determinadas facções de oposição? Modismo passageiro insuflado pela imprensa, esse ‘‘Quarto Poder’’ capaz de expor e desvendar os bastidores da política?
Que ninguém, por favor, aborreça-se com tantas perguntas, com essa minha curiosidade inesgotável. Tenho motivos para isso. Ainda esta semana durante uma aula para alunos do curso de Direito, ocorreu-me propor uma discussão sobre os seguintes temas: a lei como fator social fundamental de segurança e proteção; sua correta e justa aplicação; a responsabilidade ética dos futuros advogados, promotores, juízes, desembargadores, juristas e, por que não, ministros, em que eventualmente poderão se tornar aqueles jovens sentados diante de mim.
Calados, eles me ouviam com atenção. Então lhes perguntei para motivar o debate, por que as levas que todo o ano se formam em Direito por esse Brasil afora, e que têm a seu favor a força e o presumível idealismo da juventude, não nos libertam da corrupção que existe em parte do Judiciário, não agem a partir do conceito de isonomia, não prodigalizam a Justiça mandando para a cadeia os culpados, não se empenham em acabar com a impunidade que campeia pelo País.
Apenas um daqueles estudantes do primeiro ano me respondeu: ‘‘Professora, isto é muito bonito de dizer, mas se a gente não se enquadra no sistema, não consegue nada.’’ Bateu o sinal e a turma se dispersou, enquanto um outro ainda disse de forma tímida: ‘‘Devíamos discutir mais essas coisas.’’
Hoje vi de novo os flamboyants, fogueiras floridas cumprindo seu dever de pôr cor na paisagem. Concluí que só aquelas árvores faziam sentido. Os leitores já viram como os flamboyants estão bonitos?
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga professora universitária em Londrina
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