A suspeita de doping envolvendo a nadadora Rebeca Gusmão, ganhadora de quatro medalhas nos Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro, reacendeu a discussão sobre a exigência cada vez maior do desempenho dos atletas em busca de recordes em milésimos de segundo. A FOLHA ouviu com exclusividade o médico Eduardo de Rose, membro da comissão antidoping do Comitê Olímpico Brasileiro (COB). Ele afirma que os atletas ainda não chegaram ao limite, e garante que apenas 5% sucumbem à tentação de usar substâncias para atingir melhores resultados.

O ser humano está muito próximo de atingir seu limite físico?
O limite não é só consequência de um aprimoramento técnico e tático do ser humano. Muitas outras coisas podem estender este limite, como roupas que não oferecem resistência ao ar, equipamentos aerodinâmicos, pistas com menor atrito para favorecer a corrida. Existe todo um desenvolvimento em torno do esporte que não fica só no atleta. Por isso podemos considerar que ainda não chegou ao limite. Fatores fisiológicos, biomecânicos, psicológicos e nutricionais, se forem aprimorados, podem estender ainda mais esse limite.

É a busca pelo limite que leva o atleta a se dopar?
O que o move o atleta é a fama e o pacote que vem junto com a medalha, o dinheiro que ele ganha como prêmio ou usa como propaganda e marketing pessoal. Mas a porcentagem dos que sucumbem a esta tentação é muito baixa. Pelo menos 95% não se dopam, e a margem dos que se dopam fica em 3%, já que os 2% restantes conseguem iludir o sistema.

O controle, apesar de rigoroso, não é 100% efetivo...
Não diria isso. O controle é efetivo, mas pode ser burlado. Qualquer norma humana, qualquer lei estabelecida sobre a sociedade civil, pode ser burlada. Isso existe em qualquer lugar, inclusive no doping.

Os atletas se dopam por que sabem que não têm condições de superar quem está à frente?
Existe um perfil psicológico do atleta que se dopa. Pode ser um atleta que sofreu uma lesão, não pôde se recuperar a tempo e precisa atingir certo desempenho. É o exemplo típico do Ben Johnson (velocista canadense pego no antidoping depois de bater o recorde mundial dos 100 metros rasos nas Olimpíadas de Seul, em 1988). O segundo perfil é do atleta que está em final de carreira e tenta um último recurso de usar uma substância para superar os atletas mais jovens. Este é o caso do Javier Sotomayor (atleta cubano campeão olímpico do salto em altura nos jogos de 1992 em Barcelona, Espanha, pego no antidoping no Pan-Americano de 1999 em Winnipeg, Canadá). Supõe-se que o atleta saiba que está fazendo um doping, mas também tem muitos casos em que ele não tem a noção de estar usando substância proibida.

Pode ser indicação do treinador?
Não posso dizer, porque não tenho como provar. O atleta tanto pode decidir por si como por outras pessoas ligadas a seu treinamento, como médicos, treinadores, preparadores físicos.

Quais são os riscos para o atleta?
Depende do tipo de produto, do tempo e da quantidade que o atleta usa. Anabólicos esteróides nas mulheres causam desenvolvimento muscular muito grande, acne e alterações oleosas da pele, voz grossa, princípio de barba. Existem ainda as alterações hormonais, fazendo com que ela pare de menstruar e transforme o físico em masculino. A atleta perde as mamas, as curvas do quadril e ainda pode ter problemas hepáticos, cardíacos e ósseos motivados pelo anabólico. Nos homens não muda muito a influência interna, mas ele perde cabelo, tem uma diminuição no tamanho do escroto, do pênis e na produção de esperma. Em casos extremos, como já aconteceu no Brasil com vários atletas - tanto homens quanto mulheres -, pode levar à morte.

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