Só na boa no Timor Leste
Hélio Doyle
Uma coisa é bombardear intensamente um país que dispõe de defesas antiaéreas limitadas e reduzida capacidade de reação. Bombardear com mísseis disparados de navios à distância e bombas jogadas de aviões a grandes alturas. O risco de baixas, para quem ataca, é quase zero. As vítimas do inimigo, na maior parte, são civis. Outra coisa é lutar numa guerra de verdade. No solo, cara-a-cara, enfrentando soldados inimigos, guerrilheiros, franco-atiradores. Sujeito a emboscadas e armadilhas. O risco de baixas é grande.
Os Estados Unidos e a Grã-Bretanha gostam muito do primeiro tipo de ‘‘guerra’’, a que oferece riscos mínimos de baixas para os atacantes. Atacam o Iraque há oito anos e destruíram a Iugoslávia. Sempre com mísseis e bombas jogadas de seus poderosos aviões. Mas esses dois países fogem como podem das guerras de verdade, aquelas que envolvem riscos. Os norte-americanos, desde a Guerra do Vietnã, têm um enorme trauma: as cenas, transmitidas costa-a-costa pela televisão, de caixões cobertos por bandeiras nacionais, sendo desembarcados dos aviões.
Os norte-americanos e os britânicos só querem entrar em guerras em que possam aniquilar os inimigos sem correr riscos. Nada de enfrentar uma selva, uma montanha, com os oponentes no encalço. A derrota humilhante no Vietnã e o fracasso de seus marines na Somália ainda estão na memória de todos.
Essa é uma das razões pelas quais esses dois países mantêm os bombardeios criminosos contra o Iraque e foram tão pressurosos em destruir a Iugoslávia para não se arriscarem em uma invasão por terra. Mas tentam fugir, sob os mais diversos pretextos e subterfúgios, de participar da força multinacional para o Timor Leste.
Desde o primeiro momento em que se falou da constituição da força, o presidente Bill Clinton já foi dizendo que seu país apenas daria apoio logístico. Nada de soldados. Agora, o Pentágono já admite o envio de algumas ‘‘centenas’’ de homens, um contingente nada expressivo para a Nação mais poderosa da Terra.
Os ingleses têm mais do que se ‘‘orgulhar’’, além dos bombardeios contra civis iraquianos e iugoslavos: o afundamento, totalmente desnecessário, do cruzador argentino general Belgrano, na Guerra das Malvinas. Morreram 323 argentinos. Para o Timor Leste, os corajosos súditos de Sua Majestade deverão enviar sua tropa de nepaleses, os gurkas – um grupo mercenário conhecido pela ferocidade (e poderiam, quem sabe, mandar os hooligans...)
Se os milicianos pró-Indonésia reagirem mesmo às tropas da ONU, como prometem, os capacetes-azuis terão luta feia pela frente. Por isso – mas não apenas por isso, é verdade – os norte-americanos e os britânicos fogem dessa briga.
É por isso também que os norte-americanos andaram tentando convencer o Brasil, a Argentina e outros países sul-americanos de que deveriam intervir na Colômbia para enfrentar, segundo eles, os guerrilheiros de esquerda e os narcotraficantes. Os sul-americanos entrariam com os soldados e com os riscos. Eles, do alto de seu poder tecnológico, cuidariam do trabalho de inteligência, longe dos inimigos.
- HÉLIO DOYLE é jornalista em Brasília

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