Carmem Murara
De Curitiba
Recolocar no mercado de trabalho ou adaptar à cidade as famílias de executivos que vieram trabalhar em Curitiba com a nova onda de industrialização. Isto se tornou uma realidade?
FuhrmannEsta realidade é decorrente das empresas multinacionais ou das nacionais que vieram para o Paraná e que passaram a ter este tipo de problema. Antigamente, isso era muito difícil de ocorrer porque as empresas eram nacionais e familiares. Empresas como Electrolux, as montadoras e o grupo Sonae trouxeram os expatriados.
FolhaComo é o trabalho feito pela sua empresa para esses expatriados?
FuhrmannO que nós buscamos é assessorar o cônjuge e fazer com que ele se adapte com mais facilidade na cidade. Isso acontece tanto com homens executivos quanto com as mulheres.
FolhaQuais são as etapas desta assessoria?
FuhrmannA assessoria consiste em fazer toda uma análise do momento do profissional, para ver em que fase ele está. Eles recebem livros de leitura obrigatória até chegar à definição da continuidade do projeto de vida profissional que pode ter três alternativas. Ou eles descobrem que querem procurar outro emprego, ou montam uma consultoria ou montam um negócio próprio.
FolhaO cônjuge sempre opta por uma dessas alternativas?
FuhrmannNormalmente são estas fases e depois ele passa para a segunda fase que é o treinamento e desenvolvimento. É uma excelente oportunidade para que a pessoa faça uma reflexão de sua vida profissional e da carreira.
FolhaQuais as maiores dificuldades dos estrangeiros ou até mesmo dos brasileiros que chegam de repente para morar em Curitiba ou em qualquer outra cidade?
FuhrmannSão várias dificuldades. Desde a adaptação ao clima, aos costumes, à cultura do povo, que são diferentes, até o fato de não conhecer ninguém na cidade. Muitas vezes isso é um choque, pois em diversas situações a pessoa não espera a mudança.
FolhaMuitos executivos ou familiares procuram este tipo de assessoria, que ainda é recente para a maioria das pessoas?
FuhrmannCada vez mais há um aumento da procura. Hoje, assessoramos cinco cônjuges, sendo quatro mulheres e um homem, que foram transferidos de São Paulo para Curitiba.
FolhaDe onde são estes assessorados?
FuhrmannTemos de várias partes do Brasil e do exterior. Já demos cursos para gente de Nova York, da Argentina. Temos pessoas de Porto Alegre, de São Paulo, de Manaus. Eles vêm para fazer um programa com a gente de uma semana ou dez dias.
FolhaApós passarem pela sua assessoria, qual a opção da maioria de seus clientes? Eles se tornam autônomos, procuram novo emprego ou partem para uma consultoria?
FuhrmannÉ muito variado, mas a preferência é voltar para a mesma atividade profissional.
FolhaQue tipo de orientação e dicas vocês dão para quem está chegando numa cidade para trabalhar e também para a família que acompanha esse executivo?
FuhrmannO maior problema é que o nível de relacionamento desse pessoal é muito pequeno. Eles têm um conceito muito positivo da cidade, mas também têm um conceito prévio de que o curitibano é frio. A qualidade de vida os atrai, em contrapartida há este aspecto da dificuldade de se adaptar. A gente busca trabalhar esses aspectos.
FolhaO curitibano é frio ou isso é um mito?
FuhrmannHoje, isso é um mito. Estou há dez anos em Curitiba, pois sou paulista. Senti um pouco a frieza do curitibano, mas a aparente frieza pode ser esquecida quando começa um contato mais profundo com a cidade. Aos poucos as pessoas de fora vão conhecendo o estilo de vida do curitibano e passam a se adaptar.
FolhaQuais as perspectivas de ao final do trabalho de consultoria de sua empresa, o profissional ou o cônjuge estarem integrados à cidade?
FuhrmannO primeiro caminho para que eles se integrem à cidade é a inserção no mercado profissional, que vai permitir criar os primeiros laços de amizade.
FolhaO trabalho de assessoria a executivos é uma profissão nova. As empresas aceitam bem este tipo de prestação de serviço?
FuhrmannQuando começamos, algumas empresas nos perguntavam: ‘‘O quê? Pagar vocês para ajudar um diretor gerente que eu mandei embora ou um que eu vou contratar?’ Era uma concepção antiga que, com a vinda das multinacionais ou nacionais de porte, mudou. As grandes empresas já têm essa política inserida. Hoje, já há executivos que incluem em seus contratos uma cláusula que obriga a empresa a dar a ele uma consultoria para inserção no mercado profissional ou o assessore numa nova ocupação, caso ele seja demitido.
FolhaQuando os executivos são demitidos, a inserção em outro emprego é muito difícil?
FuhrmannNão é difícil, mas muitos optam pelo negócio próprio. Nós já assessoramos cerca de 50 executivos que partiram para o negócio próprio.
FolhaComo está a procura e a demanda por executivos no mercado profissional?
FuhrmannNós já tivemos um momento melhor, com mais facilidade de colocação no mercado profissional para os executivos. Hoje, há poucas empresas nos contratando para buscarmos executivos. Esse fenômeno não é só do Paraná, mas de todo o País.
FolhaIsso é reflexo da recessão econômica nacional?
FuhrmannSem dúvida. Eu diria que o melhor momento para a contratação de executivos foi há três anos, quando houve o lançamento da vinda das multinacionais. Houve uma procura pela contratação nas áreas de engenharia, produção industrial e profissionais das áreas de recursos humanos, administrativa e financeira. Este foi um primeiro momento. Feito isso, começaram as construções das fábricas e, em seguida, vieram as inaugurações. Com as inaugurações começou a procura por executivos de marketing, vendas, logística. Foi uma segunda fase.
FolhaE agora?
FuhrmannAgora, esta segunda fase acabou. As empresas estão instaladas e produzindo aquém das expectativas. Os fornecedores vieram com estruturas modestas.
FolhaOs executivos e o mercado esperavam mais das novas indústrias que vieram para o Paraná?
FuhrmannSem dúvida. Havia uma expectativa geral de que haveria mais emprego. Elas hoje não produzem o que tinham anunciado. Isso é aqui em Curitiba e em outras cidades do Estado, como Londrina. Fizemos alguns trabalhos para empresas que foram para lá e sentimos o mesmo problema.
FolhaPor que isso ocorreu?
FuhrmannHouve um pouco de propaganda demasiada em cima destas indústrias, mas também teve a situação econômica do País. Como são empresas de ponta que pensam a médio e longo prazo, provavelmente elas continuarão a investir, mas com outras expectativas.
FolhaCom a vinda das novas indústrias para o Paraná, se formou uma cadeia de fornecedores. Elas chegam com um conceito moderno de gestão?
FuhrmannA tendência foi lançar novos modelos de gestão, que trouxeram redução de níveis gerenciais. Novas culturas e novos valores que obrigam a contratar executivos com outros valores. As novas empresas que chegaram no Estado querem executivos mais generalistas e menos especialistas, normalmente, de fora. As empresas daqui são voltados muito a um mercado interno e formaram executivos com estas características. Logo, houve uma preferência por quem era de fora.
FolhaO que representa a terceirização de serviços dentro do trabalho que a empresa do senhor desenvolve?
FuhrmannHá um crescimento constante dentro das organizações de profissionais trabalhando terceirizados, mão-de-obra temporária, autônomos e cooperativados. Isso é uma tendência recente. As empresas deixaram de fazer os serviços com seus funcionários para fazer com outras empresas. Ela não deixou de prestar o serviço, só deixou de fazer com seus funcionários. Deixou de ter o restaurante para contratar uma empresa que forneça a alimentação, por exemplo.
FolhaA terceirização tem sido uma tendência do mercado profissional, mas ela não representa a perda de uma série de direitos conquistados pelos trabalhadores?
FuhrmannO processo é irreversível e há uma dificuldade das pessoas em aceitar esta nova forma. Nós fomos preparados, nas universidades, para sermos empregados e não para sermos empreendedores. Os nossos pais esperavam que a gente entrasse numa empresa para ter um emprego ‘‘ad eternum’’. Isso hoje é impossível. Hoje temos que ser empreendedores, isto é, empreendermos sozinhos o que no passado não era comum.
FolhaA pessoa tem de transformar a sua profissão em seu próprio negócio?
FuhrmannEla tem de ser gestora de seu próprio negócio. Não dá para esperar que a organização vá fazer o que fazia no passado. Cada vez mais, temos que assumir a gestão da nossa carreira.
FolhaEste é mais ou menos o modelo norte-americano, no qual a pessoa é que vende o seu serviço para uma empresa?
FuhrmannExatamente. O Brasil caminha para este modelo. O importante é que as universidades estão se revendo e começam a formar empreendedores dentro da organização. Quando abrimos há cinco anos, nem 10% dos nossos assessorados tinham disposição de abrir seu próprio negócio. Hoje, eles aceitam com muita facilidade. A cabeça está mudando.
FolhaA carga tributária excessiva imposta pelo governo federal, que torna um empregado muito caro para uma empresa, acabou acelerando esta mudança nas relações trabalhistas?
FuhrmannSem dúvida, mas também teve o fator da Internet. Há 25 anos, trabalhei numa empresa que tinha que ter filiais de venda em todo o País. Hoje, a Internet cumpre este papel. Estas coisas mudam, logo o profissional tem que mudar. Há uma série de profissões que estão acabando.
FolhaVárias empresas estatais e privadas estão fazendo seus programas de demissão voluntária. São centenas de profissionais que aderem a esses planos. Para onde migram estes trabalhadores? Há espaço para todos se inserirem no mercado profissional?
FuhrmannTemos um acompanhamento superficial. Há três anos, participamos de uma licitação da Rede Ferroviária Federal (RFFSA) e assumimos o trabalho de recolocação profissional daqueles trabalhadores no Paraná e Santa Catarina. Daquela experiência podemos dizer que as pessoas que agiram com mais calma e tiveram algum tipo de assessoria, se deram bem.
FolhaMas muitos partem para o negócio próprio sem ter qualquer experiência na área e em pouco tempo quebram.
FuhrmannSe a pessoa sai de uma empresa com o dinheiro na mão, aliás, é um perigo... Muitos não querem mais saber de patrão. Se ele não tiver uma boa preparação, ele perde o negócio e o dinheiro. Tem que ter calma para ver se ela tem o perfil para determinado negócio. Tem que ser um trabalho planejado.
FolhaOs cursos oferecidos por alguns órgãos como o Sebrae acabam ajudando quem está com dúvidas...
FuhrmannQuando dou palestras para um grande número de pessoas, eu costumo perguntar: ‘‘Quem de vocês têm hoje um parente ou vizinho que faz um curso no Senai ou no Senac?’ Poucas mãos se levantam. Se eu fizesse a mesma pergunta há dez anos, com certeza haveria muito mais mãos levantadas. Era comum ser aprendiz do Senai, pois todo mundo queria se qualificar para ser um operário. Hoje, não é mais. O mundo mudou. Hoje, todo mundo vai para os cursos do Sebrae, que se destinam a formar empreendedores. Essas são as mudanças que estamos vendo nos dias atuais. E temos que saber que precisamos nos atualizar e nos reciclar para enfrentar a concorrência.Para sócio de empresa de consultoria empresarial, pessoas devem ser gestoras do próprio negócio para garantir trabalho
Mauro FrassonANÁLISEFuhrmann: ‘‘Nós fomos preparados, nas universidades, para sermos empregados e não para sermos empreendedores. As faculdades buscam mudar esse conceito’’

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