Só eles ganham - Hélio Doyle
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 03 de maio de 1999
Hélio Doyle 
É impressionante a frieza com que os porta-vozes dos Estados Unidos e de seus aliados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) comentam os enganos que têm sido cometidos na guerra contra a Iugoslávia. Como já se sabe desde a Guerra do Golfo, os bombardeios chamados de cirúrgicos não são tão precisos como dizem. Atingem casas, escolas, hospitais, matam e ferem civis.
Mas os sérvios mortos pelas bombas e mísseis norte-americanos não são, para a Otan, vítimas que importam. São do mal. Só devemos nos emocionar com o drama dos kosovares-albaneses perseguidos por Milosevic. Esses são do bem.
Há velhos, mulheres e crianças entre os civis iugoslavos mortos pelos Estados Unidos e seus aliados, mas não inspiram a mesma pena que os velhos, mulheres e crianças que fogem de Kosovo. Porque o sofrimento dos kosovares-albaneses é o grande trunfo da Otan para justificar a guerra que inventou. É o único argumento para convencer as pessoas de que a guerra é justa e necessária.
Mas é óbvio que não é para proteger os kosovares que a Otan bombardeia a Iugoslávia. Isso é tão falso como as expressões de pesar do secretário de Defesa, William Cohen, ao falar das crianças mortas por suas bombas.
Todos sabem - mesmo os que fingem não saber - que a situação dos kosovares piorou muito depois que começaram os ataques. Não haveria o trágico êxodo se os aliados insistissem em realmente buscar uma solução diplomática para o problema de Kosovo, no lugar de recorrerem à violência insana.
A verdade é que os norte-americanos não quiseram encontrar uma saída para o impasse em Kosovo. Os Estados Unidos nada queriam negociar em Rambouillet. O objetivo era impor à Iugoslávia a ocupação de seu território por tropas da Otan. O objetivo não era um acordo, mas justificar a guerra.
Não é difícil entender por que e a tática deu certo: os aliados apresentaram suas exigências aos iugoslavos já sabendo que não seriam aceitas; e passaram meses ameaçando bombardeá-los, de modo que não houvesse jeito de recuar. Se a Otan não cumprisse suas promessas de atacar, seria desmoralizada em seu 50º aniversário e Slobodan Milosevic ficaria mais forte.
O que os Estados Unidos realmente querem é dominar a Iugoslávia e tornar inevitável sua maior presença na Europa. Já tinham conseguido, com a ajuda da Alemanha, dividir a Iugoslávia do tempo do comunismo e era preciso enquadrar a Sérvia.
A lógica dessa guerra é terrível: um país é destruído para que seja reconstruído. E tenta-se derrubar um dirigente tido como inimigo dos interesses ocidentais para substituí-lo por um amigo. Mesmo que muita gente morra para isso.
Milhões de dólares serão necessários para reconstruir o que as bombas e os mísseis estão destruindo. É claro que a Iugoslávia não tem esse dinheiro, que virá dos Estados Unidos e de seus aliados europeus. E assim completa-se o círculo da dependência dos iugoslavos aos norte-americanos.
De quebra, os Estados Unidos conseguem reduzir a influência da Rússia na Iugoslávia, debilitam a União Européia, favorecem sua monstruosa indústria bélica e firmam-se no papel de polícia do mundo. Tudo perfeito.
Os países europeus que embarcaram na aventura de Kosovo enfrentam crises internas e têm dúvidas quanto à eficácia e validade do que estão fazendo, mas agora não têm saída. Vêem os norte-americanos voltarem ao continente com suas tropas, seus orçamentos são comprometidos com a guerra e serão com a reconstrução da Iugoslávia e o euro se desvaloriza cada vez mais diante do dólar.
Nessa guerra, todos perdem. Os sérvios, os kosovares-albaneses, os europeus. O mundo perde com a barbárie no Velho Mundo. Só os Estados Unidos ganham.
- HÉLIO DOYLE é jornalista em Brasília


