Vânia Casado
De Curitina
Como a agricultura brasileira e da América Latina pode sobreviver neste ambiente de competição e economia globalizada?
Polan LackiSó há um caminho realista. Tornar a agricultura eficiente. Não adianta ficarmos nos enganando com políticas de mais crédito, menos crédito, mais juros, menos juros, AGFs, EGFs. O problema não é esse. Ocorre que durante anos e décadas, os agricultores acostumaram-se aos créditos favorecidos, subsídios e medidas artificiais concedidas pelos governos. O produtor produzia com ineficiência e o governo compensava com juros baixos e subsídios. Agora, com a globalização da economia, os portos estão abertos para entrada de produtos do exterior e o agricultor se viu sozinho, de frente para a concorrência.
FolhaNão seria o momento de o governo apoiar os produtores?
LackiO governo não tem mais dinheiro para conceder os créditos na quantidade suficiente. Não pode mais subsidiar. Ao invés de ficarmos nos enganando com políticas paternalistas, temos que encarar a realidade que nossa agricultura é ineficiente. Se analisarmos os rendimentos médios da agricultura e pecuária paranaense e brasileira, temos de ter a humildade de reconhecer que a maioria dos produtores comete erros tecnológicos, gerenciais e organizacionais nos diferentes elos do negócio agrícola. Desde o momento da compra de insumo até o momento que esse alimento chega à mesa do consumidor. E devido às ineficiências e distorções de toda a cadeia é que os agricultores não têm rentabilidade e têm dificuldade de ganhar dinheiro.
FolhaQuais as distorções geradas pela ineficiência?
LackiDevido a ela, os custos unitários de produção são desnecessariamente altos e os preços de venda dos excedentes são desnecessariamente baixos. Os rendimentos são baixos por unidade de terra, porque o produtor compra os insumos de forma individual, do último elo de uma cadeia de intermediação. Mas também porque ele não sabe administrar a propriedade, superdimensiona os investimentos realizados, vende sua produção ao primeiro intermediário, sem nenhum valor agregado.
FolhaO que fazer para mudar esse cenário?
LackiTemos que ensinar, profissionalizar e capacitar o agricultor para que ele adote medidas tecnológicas, gerenciais e organizacionais e com isso reduza os custos unitários de produção. Se em virtude da globalização ele não tem o poder de interferir nos preços dos seus produtos, o único recurso que lhe resta é interferir no custo de produção. Se o preço é esse, se já sabemos que a indústria não vai pagar mais pelo litro de leite porque a cotação do produto é ditada pelo mercado internacional, a única saída realista é o agricultor interferir no processo, produzindo a custos mais baixos e elevando a produtividade. E isso só se dá com mais conhecimento, tecnologia e profissionalismo, para sobreviver num ambiente competitivo mesmo sem crédito e mesmo que entre aqui o produto subsidiado do exterior.
FolhaO senhor acha possível enfrentar essas mudanças a curto prazo?
LackiPelo simples fato de que as mudanças demoram a ser implantadas, nós devemos começar com elas hoje. Aliás, deveríamos ter começado ‘‘ontem’’, há 30 anos. Abandonamos a extensão rural no Brasil e na América Latina. Reduzimos o apoio político e financeiro ao serviço de extensão rural, e muitos serviços se descaracterizaram, politizaram-se. Isso é inaceitável porque a extensão rural é eminentemente técnica e tem que ser dirigida por critérios técnicos e não políticos. Em vários países da América Latina, a extensão rural perdeu força e capacidade para educar e o extensionista não foi mais preparado. Quando era capacitado, não tinha veículo para ir ao campo. Quando tinha veículo, não tinha combustível. Quando tinha combustível, não tinha diárias e por aí vai.
FolhaO que fazer para resgatar esse serviço vital?
LackiCom os agricultores exigindo do governo maior apoio em extensão rural. Essa é a minha tese central. Ao invés dos agricultores se iludirem com o sonho de que o governo vai lhes dar algumas migalhas de crédito subsidiado, eles devem se organizar para exigir extensão competente. Outro desafio a ser enfrentado, e nesse caso nem a extensão rural competente pode fazer milagre, é a dificuldade de orientar uma família rural que não tem a cultura da eficiência, que não recebeu formação agrícola adequada.
FolhaQual a proposta da FAO para a América Latina?
LackiDe forma direta e objetiva, uma profunda reforma nos conteúdos curriculares da escola primária rural. É um absurdo que na escola primária rural, que deveria proporcionar conhecimento a essas crianças, não se ensine sobre higiene, agricultura, saúde, alimentação, associativismo, normas elementares de solidariedade e de cooperação. É fundamental ensinar essas crianças como se conserva o solo, como se usa racionalmente os recursos naturais, a importância de vacinar e manter os animais com higiene, que a higiene deve se estender ao lar, à família, conscientizá-las que devem lavar as mãos antes de comer, escovar os dentes depois da alimentação, que devem ter uma latrina na propridade, que devem tomar vacinas, que é importante hortas e fruteiras para comer mais sais minerais e vitaminas para ter uma saúde melhor. A escola tem o dever de ensinar necessidades de vida e trabalho no campo. Todas as pessoas de bom senso reconhecem que é um absurdo ensinar a essas crianças assuntos distantes de suas realidades, abstratas, que não têm nada a ver com realidade cotidiana, com os problemas que vivem na propriedade e no lar. Eu sou ex-aluno de escola primária rural de Foz do Iguaçu e lá me ensinaram a altura do Monte Everest, a história do Império Romano, da Grécia, dos faraós do Egito, pirâmides, Montanhas Rochosas dos EUA, governadores gerais do Brasil. Tudo isso é importante, mas não é relevante. Com o ensino de coisas úteis, formamos uma geração de homens e mulheres rurais com mais auto-estima, que acreditam mais neles do que nas migalhas que possam lhes dar um político.
FolhaComo competir com a agricultura da Europa e dos EUA, países de economia desenvolvida, que subsidiam seus produtos?
LackiEles subsidiam porque têm consciência da importância de um país em produzir alimentos. Porque já passaram por guerras e sabem o que é passar fome. Têm consciência da importância estratégica da ocupação do território. Subsidiam sobretudo porque podem, porque têm dinheiro para isso. Aqui na América Latina e no Brasil temos força política para impedir que eles continuem subsidiando? Não temos. Temos dinheiro para fazer a mesma coisa? Não temos. Tenho estudado esse assunto há muitos anos com profundidade, e a única forma realista de enfrentar ou compensar os pesados subsídios que eles dão, e que nós não podemos dar porque não temos dinheiro, é através da eficiência. Temos de ser tão eficientes a ponto de não precisarmos do subsídio e sermos tão eficientes a ponto de não nos assustarmos com os subsídios dados em outros países. E isso é possível. Em toda a América Latina, onde a queixa é a mesma, desde o norte do México até o sul da Patagônia.
FolhaO que esperar da agricultura do terceiro milênio com essas disparidades?
LackiSobretudo uma agricultura muito eficiente, com altos rendimentos, produtos de boa qualidade, mais sadios, mais limpos, higiênicos, em que o agricultor terá que ser um empresário, pequeno, médio ou grande, não importa. O aspecto doloroso é se ele não for muito eficiente porque muitos ficarão no meio do caminho.
FolhaComo se preparar para isso?
LackiNão dá para competir com países como Canadá ou Austrália, onde a pecuária leiteira rende 30 litros de leite por dia, enquanto aqui os animais rendem em média 4 litros de leite. Antes de me queixar que os canadenses ou australianos estão subsidiando o leite, preciso ter autocrítica. Ser eficiente é colher 6 toneladas de trigo por hectare, e não 1.700 quilos, como colhemos. É colher 10 toneladas de milho por hectare e não 3 toneladas, como estamos colhendo. Que nossa vaca tenha um terneiro a cada 13 meses e não a cada 24 meses como tem na América Latina. E temos de nos organizar para comprar o insumo em conjunto para não comprometer o último elo da cadeia, e não vender a colheita ao primeiro elo da intermediação.
FolhaDe quem é a culpa por esse atraso tecnológico?
LackiEstou longe de dizer que a culpa é dos agricultores. É evidente que não é deles. A culpa é das instituições municipais, estaduais, nacionais e internacionais, que durante décadas não foram capazes de proporcionar a esses agricultores o mais estratégico insumo do mundo moderno que é o conhecimento. Com a globalização, a mudança será revolucionária e o agricultor que não for eficiente e produzir com qualidade e a custo mais baixo, será expulso da atividade. E aquilo que muita gente pensa que é uma ameaça, também é uma oportunidade de abrirmos os olhos para uma verdade, a de que não podermos continuar fazendo o que fazíamos.
FolhaA fome do mundo é irreversível? Como fazer para combatê-la?
LackiA fome se combate de duas maneiras. Produzindo mais alimentos a preços mais baixos e combatendo-a com elevação do poder aquisitivo do povo. A fome existe não porque a agricultura não tenha capacidade de produzir alimentos, mas porque os pobres não têm capacidade para comprar. Do que adianta eu falar que a agricultura precisa produzir mais se o pobre não pode comprar? As instituições têm a responsabilidade de transformar a distribuição da produção agrícola para que os alimentos cheguem a um custo mais baixo do que chegam hoje; dando oportunidade, um maior número de brasileiros vai poder comprar para comer.
FolhaComo os agricultores podem avançar sem a ajuda do poder público?
LackiNuma primeira etapa, têm que depender do poder público. Daí a importância do serviço de extensão e da escola pública primária rural, que o governo precisa garantir. Mas temos que alertar que isso não vai durar sempre, um dia vai acabar. Enquanto não conseguirmos profissionalizar e emancipar esses agricultores, o governo precisa conceder um período de espera, de preparação, de até uns 15 anos para formar uma geração de agricultores emancipados dele. Toda resposta do governo municipal, estadual e federal deveria ter como objetivo proporcionar ao cidadão os conhecimentos para que amanhã ele não necessite do Estado.
FolhaO terceiro milênio assuta?
LackiA mim não assusta, porque entramos numa era de oportunidades. Agora, precisamos correr para não ficarmos no meio do caminho. Para quem não se preparar para essa realidade, o futuro será muito ruim. Essas pessoas a quem não oferecemos a possibilidade e a oportunidade para se encaixar no desafio da globalização, serão expulsas do campo com a agravante de que o governo e o complexo industrial têm cada vez menos capacidade de absorvê-las. A agricultura, ao invés de ser considerada como grande problema, deveria ser encarada como a grande solução. E isso até já está ocorrendo. Foi a agricultura que aguentou em grande parte o Plano Real, que conseguiu diminuir o déficit da balança comercial; é o setor que mais emprega mão-de-obra no País.
FolhaComo a FAO está pregando a revolução pelo conhecimento na América Latina?
LackiConscientizando com palestras, seminários, encontros, publicações de documentos, e alertando a opinião pública e as autoridades que estamos entrando na era do conhecimento. Por isso queremos salvar a agricultura e os agricultores e fazer com que eles tenham êxito nesse processo de competição. Por isso precisamos investir nesse homem, mulher ou criança para, através da educação, desenvolver suas potencialidades e capacidade para ele mesmo poder resolver seus problemas.
FolhaA América Latina é só ineficiência? Não temos ilhas de excelência?
LackiTemos agricultores com altos rendimentos na avicultura, na moderna suinocultura, em parte no cultivo de soja, café, citricultura, olericultura. No Chile, a média de rendimento de milho que também não é lá aquelas coisas, é de 8.200 quilos por hectare. Já a média nacional no Brasil não chega a 2.600 quilos por hectare. O Chile colhe em média 3.500 quilos de trigo por hectare, nós colhemos 1.700 quilos por hectare. Veja que temos muito a avançar. As regiões mais à frente são o Sul do Brasil, Uruguai, Argentina e Chile, onde estão os rendimentos mais altos. Mas estou falando nas médias. Dentro do universo de 6 milhões de pequenos e médios produtores existentes no Brasil, as estatísticas estão demonstrando que a grande maioria não é eficiente. Não é mais como antigamente, quando o filho mais incompetente ficava na roça e o mais inteligente ia para a cidade para fazer uma atividade urbana. Hoje a agricultura é uma atividade à qual oxalá se dedique o filho mais inteligente, com mais potencialidade, porque a agricultura é um desafio realmente grande.Radicado no Chile e trabalhando na FAO, agrônomo paranaense defende meio ideal para restabelecer eficiência e riqueza do campo
José SuassunaMODERNIDADELacki: ‘‘Hoje não é mais como antigamente, quando o filho mais incompetente ficava na roça e o mais inteligente ia para a cidade’’

mockup