Situação econômica confunde brasileiros
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sábado, 27 de julho de 2002
Agência Estado 
São Paulo Pergunte a um brasileiro por que o País está em crise e a resposta provavelmente será digna das teorias mais conspiratórias. Existem umas empresas com problema lá nos Estados Unidos, alguém inventou esse risco Brasil, que colocou o País atrás da África, aí os especuladores fizeram o dólar chegar nos R$ 3 e sobrou para o Brasil, que pode virar uma Argentina, era a explicação de muitas das pessoas que faziam compras em um shopping center na capital paulista, em plena tarde de sexta-feira. Mas eu, para ser sincero, ainda não estou sentindo a crise na pele, emenda o vendedor Vandegildo Arruda da Silva, 27, que ganha R$ 1,1 mil por mês. A única coisa que eu percebi é que tem mais gente desempregada e o preço do gás subiu.
Para a maioria das pessoas, a crise econômica veiculada em jornais e TVs todos os dias ainda é uma coisa meio confusa. Risco Brasil, rolagem da dívida, superávit fiscal, tudo isso é grego. Risco Brasil é o efeito-Orloff da Argentina, tenta o advogado Ayrton Ribeiro, de 36 anos. Eu acho que esse risco mostra como somos vistos lá fora, o que eles acham dos presidenciáveis, da violência, da inflação, e aí eles decidem se vão investir ou não no Brasil, acredita a professora universitária Nori Bahia, de 45 anos.
Seja o que for, o índice de risco, um dos termômetros da crise, causa indignação. O risco Brasil está muito injusto, por que é que não vão calcular o risco América?, protesta a advogada Maria Eulina Ulhoa Cintra, de 59 anos. Geraldo Santiago, 41 anos, que ganha a vida vendendo bilhetinhos da sorte em seu realejo, chega a desligar o rádio quando começam a falar de novo no índice. Antes não existia nada disso, aí um xarope inventou esse risco Brasil e não param de falar nele no rádio, diz. Para o promotor de vendas João Paulo Kishi, de 19 anos, é natural que os investidores estejam fugindo do Brasil, já que o País só perde para a Nigéria em risco. Mas não sei como eles calculam isso aí, porque tenho certeza que a gente é melhor que a Nigéria, diz.
De qualquer maneira, as turbulências econômicas ainda parecem distantes do mundo real. Elas são vistas como um problema mais restrito ao mercado financeiro. Preocupada eu não fico porque não tenho dinheiro aplicado, diz a advogada Eulina.
Desemprego, gás, gasolina e produtos importados ainda são a face mais cotidiana da crise que pode forçar o País a negociar um acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI) para conseguir honrar seus compromissos. Não sei o que é risco País nem superávit, só sei que aquela geléia maravilhosa que eu sempre compro, importada, tá custando R$ 10, e o azeite Gallo também aumentou, reclama a dona de casa Stase Panicacci, de 74 anos.
Mas mesmo com a crise percebida de forma desigual, o principal culpado já foi eleito. O anti-americanismo aparece com força em todos os diagnósticos populares sobre a turbulência econômica. A impressão que eu tenho é que a crise é mundial, e o grande causador é o senhor Bush (George W. Bush, presidente dos EUA), diz o aposentado Orlando Caverni, de 71 anos. Muitos não entendem como as fraudes e falências das empresas americanas podem acabar sobrando para os brasileiros. E questionam o funcionamento do mercado. Para os americanos, uma hora o problema era o Lula, agora é o Ciro, se eu for candidato eu também vou ser culpado pela alta do dólar?, pergunta Caverni.
O sentimento geral ainda é que a crise não é tão ruim, os investidores é que estão reagindo de forma desproporcional. Sofri mesmo na época do Collor (ex-presidente Fernando Collor), porque não podia viajar e nem comer o que eu queria, lembra a professora Nori.
O QUE SIGNIFICA
Superávit primário quando o governo gasta menos do que arrecada, economizando para pagar juros da dívida
Risco-país o risco-país mede a sobretaxa paga pelo país ao tomar empréstimos em relação ao que pagam os EUA
Taxa Selic reflete os juros embutidos nos títulos bancários trocados entre bancos e é divulgada mensalmente pelo Banco Central
Juro no over mercado de juros de um dia
População respira crise econômica: sobe-e-desce das bolsas, tombo dos fundos, queda do dólar, déficit da balança. É a rotina dos brasileiros


