EditorialSituação de emergência
O desafio representado pela falta de alimentos embute uma informação estarrecedora: atualmente morrem no mundo, todos os dias, 40 mil pessoas de fome. É curioso, porém, como uma revelação de tamanho impacto, por fazer parte de um todo, quase nem é percebida em sua magnitude. Mas é só parar um pouco para sentir toda a imensidão desta tragédia. Dos cerca de 5 mil municípios do Brasil, a maioria não tem 40 mil habitantes; este total representa também quase a lotação de um estádio de futebol de médio porte. E é preciso pensar nisto, sentir de fato o que são 40 mil mortos para começar a perceber quão terrível é esta situação e o quanto é vital, até para que os seres humanos possam se sentir mais próximos uns dos outros e menos egoístas, não só para reverter, mas para acabar com esta situação.
Naturalmente, é fácil (e certamente correto) ponderar que se trata de um drama que acompanha a vida do homem na chamada civilização e que não pode ser resolvido de uma hora para outra. Ademais, também não faltam os que entendem que este enorme volume de vítimas diárias se localiza bem longe, na conturbada África, na Ásia, nas regiões mais sofridas do planeta. Ainda que esta fosse a realidade geral, persistiria o problema na medida em que a humanidade não se divide em nacionalidades ou raças. O ser humano é um só. Ocorre, porém, que há outra situação a ser considerada: do total das 40 mil vítimas diárias da fome, seguramente há uma parcela de irmãos nossos, notadamente os que hoje enfrentam as terríveis consequências da seca no Nordeste. Pois não há como deixar de reconhecer que entre os 10 milhões que passam fome, muitos, especialmente crianças, não conseguem resistir a isto.
É profundamente alentador reconhecer que desde que começaram a surgir as notícias sobre a situação de fome no Nordeste, uma onda de solidariedade varreu o país. Doações de alimentos e roupas foram recolhidas em praticamente todas as regiões brasileiras. Houve inclusive casos de pessoas que não só arrecadaram víveres, mas levaram a comida diretamente a áreas atingidas. Ocorre que este tipo de ação não é tão simples. E a magnitude da tragédia exige mobilização maior, com participação efetiva e imediata por parte das autoridades. E é aí que as coisas não estão funcionando. Notícias divulgadas esta semana indicam que grande quantidade de alimentos disponível para os famintos deve chegar à região afetada em 15 dias. Quanta gente vai morrer de fome neste intervalo de tempo?
Os saques, os ataques a caminhões com gêneros alimentícios e, principalmente, a percepção de que boa parte destas ações foi programada com fins de exploração da miséria alheia, acabaram por deixar em plano secundário o drama real da fome. Todavia, a situação persiste e não há desculpas que sirvam para que se protele o envio de alimentos, de água, de assistência àqueles milhões de brasileiros que nem querem caridade, mas trabalho. Acontece que neste momento existe uma situação emergencial. E não se pode simplesmente esperar ou adiar os esforços para levar rapidamente o socorro aos que dele necessitam. A emergência é de tal porte que se pode até reclamar o uso de aviões de carga para levar de imediato a ajuda. Que se mobilize o avião do presidente, os cargueiros disponíveis, o que for possível. Mas que o alimento chegue para aliviar a fome e salvar da morte os irmãos do Nordeste.
Não é uma tarefa fácil acabar com a fome no mundo. Nem no Brasil. Isto reclama ação, recursos, vontade política. Entretanto, enfrentar uma emergência como esta que existe no Nordeste é outra coisa. E é uma ação que não pode demorar mais.

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