'Sisu tem contribuído para a evasão de alunos de forma mais intensa'
Especialista em políticas públicas em educação critica sistema, que está completando 10 anos no Brasil
PUBLICAÇÃO
sábado, 01 de junho de 2019
Especialista em políticas públicas em educação critica sistema, que está completando 10 anos no Brasil
Vitor Ogawa - Grupo Folha 

O Sisu (Sistema de Seleção Unificada do Ministério da Educação), pelo qual instituições públicas de ensino superior oferecem vagas em universidades públicas a candidatos participantes do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), completa dez anos em 2019. Ele foi concebido em 2009 e executado pela primeira vez em 2010 com a proposta de ser uma política pública de inclusão e democratização do acesso ao ensino superior. No entanto, ele recebe fortes críticas por não conseguir cumprir esse papel. O sistema foi criado para ser uma alternativa ao vestibular, mas possui os mesmos erros e outros problemas de exclusão social, pois gera privilégios para estudantes de regiões mais ricas, ou que possuem acesso a um sistema educacional melhor.
A reportagem da FOLHA conversou sobre o assunto com a professora Elizabeth Balbachevsky, graduada em Ciências Sociais pela USP, com mestrado em Ciências Sociais pela PUC-SP, e que possui também doutorado e livre-docência na área de Ciência Política pela USP.
Qual o balanço a senhora faz dos dez anos de Sisu?
O Sisu tem contribuído para evasão de alunos de forma mais intensa do que ocorria anteriormente. Os resultados esperados eram de que o sistema poderia aumentar a mobilidade dos alunos e aumentar a chance dos jovens de ingressar no ensino superior, mas não realizou esse potencial. Existe um estudo de Simon Schwartzman sobre o perfil dos alunos que ingressam no ensino superior pelo Sisu que aponta uma mobilidade baixa, que não chega a 20% dos jovens que usam o sistema para buscar vagas.
Por qual motivo isso ocorre?
Os alunos tentam ficar no Estado onde moram, na universidade mais próxima pela qual conseguem pontuação. A mobilidade parte dos estados de São Paulo, do Rio de Janeiro e dos estados do Sul do Brasil, que possuem ensino médio de melhor qualidade, para outros estados. No entanto, a mobilidade de outros estados para esses é muito pequena, porque o ensino médio de melhor qualidade cria vantagem competitiva, ou seja, há liberdade de escolha unidirecional. Isso provoca problemas de ocupação de vagas.
Os alunos abandonam mais os cursos?
O Sisu tem inadvertidamente contribuído para a evasão universitária de forma mais intensa do que antes. As universidade federais pioraram aquilo que a gente chama de eficiência, que é a quantidade de alunos pelo prazo que deviam formar. Eu acredito que esse problema de mobilidade ajuda a alimentar esse problema de evasão. O jovem vai para outra cidade e não se acostuma, a mãe não consegue bancar o filho fora de casa. As universidades brasileiras não foram feitas para acolher alunos de fora de Estado. Não possuem experiência nisso e não oferecem apoio psicológico e social. Também não dão assistência a quem enfrenta problemas, como por exemplo, de moradia. A estadia do estudante fora do local de origem fica proibitiva para a família, principalmente para as de renda mais baixa. O jovem não se acostuma com o lugar, enfrenta problemas de custeio das despesas, e há a dificuldade para se acostumar com outra região, devido aos hábitos diferentes.
E o impacto no ensino médio? Como a senhora avalia isso?
Já está na hora de fazer avaliação séria sobre o impacto negativo na vida dos alunos do ensino médio, que deveria formar valores e o raciocínio dos estudantes, mas o Sisu tem empobrecido isso. Esse exame brasileiro é o supra sumo da coisa velha e antiga. As famílias de renda mais baixa não possuem expectativa de entrar no ensino superior, porque as escolas preparam um currículo que basicamente prepara o aluno para fazer a prova do Enem. É uma verdadeira quimera na vida do estudante. Escolas públicas e privadas fazem testes ao longo dos três anos visando passar no exame. A reforma do ensino médio abriu para ter maior diversidade no currículo, mas o Sisu fez com que os estudos se tornassem treinamento para entrar na faculdade.
Isso ocorre somente no Brasil?
Isso é conhecido em todos os países que fazem esse tipo de exame. O êxito nessas provas não representa sucesso desse aluno na faculdade e na vida. Lá nos Estados Unidos existe o SAT (Scholastic Assessment Test), que leva em consideração o desempenho do aluno ao longo do ensino médio, além do resultado no exame. Isso faz com que o estudante tenha estímulo para estudar. Aqui no Brasil o aluno nunca tem isso. O aluno pensa que pode fazer o que quiser e no último ano faz um cursinho e passa no exame. Eu considero esse empenho durante todo o ensino médio mais potente para avaliar esse estudante do que passar em um exame realizado em um dia em que o estudante pode ter tido uma dor de cabeça.
Mas como funciona o SAT?
A diferença entre o Enem e o SAT é que este último possui um banco de questões. Para o estudante fazer a prova é só ir a algum lugar credenciado e faz o exame a qualquer momento. O sistema SAT gera prova individual para aquela pessoa e tudo é feito on-line. Basta o aluno sentar na frente do computador e fazer a prova. Isso é mais viável do que armar uma operação de guerra para todos os alunos fazerem a prova ao mesmo tempo. O Brasil poderia ter algo mais inteligente e flexível do que esta coisa horrorosa, do século 19. É uma coisa de Napoleão III, da França.
Antes o estudante poderia fazer sua matrícula pelo Sisu na segunda opção e ainda declarar interesse para entrar para a lista de espera na primeira opção, mas com as mudanças no Sisu 2019, não pode mais. Como a senhora vê as mudanças?
Foi a maneira que o governo encontrou de tentar cercar o comportamento estratégico dos alunos que sabem a pontuação que possuem e ficam olhando as ofertas dos locais onde têm chances de entrar. No modelo anterior o estudante fazia algumas apostas. O aluno não faz as escolhas de acordo com o interesse dele, do ponto de vista profissional, mas de acordo com o local onde haja mais facilidade de entrar. Essa estratégia de forçar os alunos a permanecer nas primeiras escolhas é um mecanismo para evitar fenômeno de volatilidade. Há uma hipótese de que esse tipo de escolha “oportunística” seja responsável por parte da evasão.
Quais são outras razões para a evasão?
Em alguns cursos a evasão é altíssima, mais de 50% dos alunos matriculados. O problema não é esse. Enquanto continuar com esse exame de “salvação nacional” vai ter essa situação. O ensino brasileiro estabelece essa lógica de escolher a profissão que exercerá pelo resto da vida muito cedo. Com 17 anos a pessoa não sabe o que quer da vida. Por isso em alguns lugares o currículo migrou para dois ou três anos de formação genérica e só depois há a formação específica. Isso é aplicado na Universidade Federal do Sul da Bahia e na Universidade Federal do ABC. O Sisu tem a lógica de leilão. As pessoas que vão a um leilão dificilmente saem sem comprar alguma coisa, nem que seja com uma bobagem que não sabe para que serve. O aluno entra com essa mentalidade, porque é o que o sistema pede para ele fazer. Mas ele joga com o futuro dele e, quando vê que entrou no curso errado, desiste.
No ano passado o governo anterior chegou a anunciar a criação do Sisu Transferência, que permitiria a transferência de unidades privadas para universidades públicas, com expectativa de que diminuíssem as vagas ociosas. A previsão era de que ele entrasse em vigor ainda este ano. Como a senhora vê isso?
Não funciona. O modelo e a dinâmica da universidade tornam difícil contabilizar vagas ociosas. O estudante normalmente não desiste, tranca a matrícula por dois a três anos e aquela vaga fica bloqueada. Alguns alunos realmente demoram mais tempo para se formar por estarem trabalhando e terem responsabilidades familiares. É fácil contar o total de alunos que entraram e quantos estão se formando, mas não significa que a vaga ficou ociosa em algum momento. Nossa LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional) deixa completamente sob a decisão da universidade sobre quais as disciplinas que irá reconhecer da outra instituição. Pode ter três anos na universidade privada e na pública descobre que tem que voltar para o primeiro ano. É um horror.


