Sistema cardosiano
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quarta-feira, 22 de agosto de 2001
Marco Alzamora 
Algo indicava, no início, que o PSDB do Fernando Henrique Cardoso iria adotar um novo paradigma de governo. Com o desprezo ao cartesianismo, com características quase holísticas, a filosofia partidária seria colocada em prática. Não aconteceu. Embora com as vitórias simultâneas dos tucanos, de 1995 a 1998, nos três Estados mais poderosos do País, pagamos um alto preço na formação da imagem pública do PSDB.
Oriundos do PMDB, agrupamo-nos em torno da ética na política e combate absoluto à corrupção, priorizando o social, com tendência ideológica de centro-esquerda e com a pregação da troca do presidencialismo pelo parlamentarismo. Porém, nossa incoerência política tornou-nos artificiais. Anunciamos nossa linha de centro-esquerda, mas para eleger FHC presidente, fechamos chapa com o maior partido de direita, o PFL. O filósofo tornou-se neoliberal. E pior, com duas medidas incoerentes e antagônicas protegendo a corrupção.
Enquanto o presidente armava José Aníbal com Scalco e a turma do Jaime Lerner aqui no Paraná, o mineirinho José Alencar estava recebendo tratamento diferenciado pelo fato de possuir um fortuna considerável.
Alencar anunciou que assinaria a CPI da Corrupção, contrariando determinação expressa do Palácio do Planalto aos parlamentares governistas. Recebeu um telefonema pessoal do presidente Fernando Henrique, mas se negou a reconsiderar. Em compensação, enviou uma carta manuscrita ao prezado ''amigo presidente'', dando as razões para aderir à CPI. Funcionou. Semanas depois, outros signatários da comissão sentiam a represália do governo. Enquanto isso, Alencar era cotado para assumir um ministério. Bilionário, acumula as funções de candidato e financiador de campanha, o que aumenta seu poder de negociação.
O País engrena-se para um ''modus operandi'' onde a corrupção campeia solta e largamente. Travestido de neoliberal, agindo contra os princípios que deveriam nortear a postura límpida da ética e da moral, o filósofo embrenhou-se nas trevas energéticas.
Daí em diante, o Brasil começou a ser lançado numa operação desmonte, gerando a maior crise da sua história. Entre 1957 e 1995, o Brasil se tornou campeão em hidreletricidade, onde a capacidade instalada cresceu de 3,5 mil mWh para 55 mil mWh. O racionamento da década de 50 ficou, há muito, no remoto passado. Tínhamos um sistema energético limpo, renovável, barato, capaz de estocar água para cinco anos, podendo transferir do Sul para o Norte e do Nordeste para o Sudeste, gerenciando integradamente nossas bacias hidrográficas. Possuíamos empresas com usinas já amortizadas, com alta rentabilidade mesmo vendendo barato a energia produzida.
Era assim o sistema elétrico brasileiro, até seis anos atrás. Quando as dívidas do setor atingiram US$ 50 bilhões, em meados da década de 1990, surgiram os adeptos do sistema cardosiano do desmonte. O governo entregou a responsabilidade de criar os modelos de privatizar tudo, rapidamente, à empresa inglesa Coopers&Lybrand. Como o sistema inglês é basicamente térmico, estava clara a incompetência dos intervenientes, que ignoravam a forma específica de otimização da hidreletricidade brasileira, cujo modelo proposto de geração e distribuição causaria uma perda imediata de 25% na potência instalada.
Aqui no Paraná, resta despedirmo-nos da Copel. No Brasil, favor apagar a luz quando sair do recinto. Considerando estar provado cientificamente que a semelhança do DNA dos símios com a dos seres humanos é de aproximadamente 95%, seria preferível sermos macaquitos e copiar os Estados Unidos. Lá, pátria do liberalismo, o sistema de geração hidrelétrica é preservado sob controle estatal com parte operado diretamente pelo Exército.
Bem justificado pela necessidade de preservar nas mãos do Estado o núcleo estratégico do sistema energético, sem o qual o País pára. Por outro lado, porque gerenciar hidrelétricas é gerenciar as reservas de água com implicações diretas sobre abastecimento, irrigação agrícola, navegação interior, meio ambiente, pesca, turismo e outras atividades. É segurança nacional.
- MARCO ALZAMORA é arquiteto em Curitiba


