Síndrome do caranguejo
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domingo, 25 de janeiro de 2015
Clodomiro José Bannwart Júnior 
Não é de hoje que as pessoas, e não sem razão, desconfiam da política e, sobretudo, dos políticos. Há muitos méritos a serem ressaltados ao longo dos últimos anos que conduziram ao aperfeiçoamento institucional do modus operandi da política, criando condições de a democracia brasileira fortalecer sua legitimidade. Mas há, por outro lado, inúmeros exemplos de atitudes deploráveis que nivelaram e continuam nivelar por baixo o trato com a coisa pública, demonstrando que nos falta ainda construir uma tradição política mais ética, menos pragmática.
Uma das boas notícias e que vem em boa hora é a resolução 23.432 do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que regulamenta, de forma mais transparente, a prestação de contas dos partidos. A nova resolução estabeleceu a necessidade de os partidos, em cada esfera de direção, dispor de três contas bancárias para a movimentação de rubricas distintas: uma para os recursos provenientes do Fundo Partidário, outra para as doações de campanha, e uma terceira para "outros recursos". Além de facilitar o cruzamento de dados, também os bancos deverão enviar à Justiça Eleitoral, a cada trinta dias, um extrato completo da movimentação dessas contas.
É um avanço que merece reconhecimento, visto que este novo mecanismo irá atacar supostos "caixas dois", além de evitar que o próprio "caixa um" seja irrigado por dinheiro sujo, fruto de atividades criminosas usualmente praticadas, como as que têm sido reveladas pela operação Lava Jato.
A má notícia, porém, vem dos porões da velha política, sempre astuta a pilhar brechas na lei para saídas legais que conduzem a caminhos reconhecidamente imorais. Não é de hoje que o pragmatismo de Gilberto Kassab (PSD) dá mostra do que a política brasileira é capaz.
Ainda jovem, o ex-prefeito de São Paulo começou sua carreira política em 1988, no PL, ao lado Afif Domingos. Depois migrou para o PFL que mais tarde se transformou no DEM. Abandonou o barco oposicionista dos democratas em 2011 para ingressar em uma nova agremiação, criada por ele mesmo: o PSD. Na ocasião, Kassab ressaltou que o novo partido teria um "programa a favor do Brasil", mas que "não seria de direita, de esquerda, nem de centro".
Em três anos o partido somou zero no espectro ideológico, contudo, consolidou a quarta maior bancada no Congresso Nacional, grande maioria de antigos oposicionistas ao PT e, de tabela, faturou a vaga de ministro das Cidades ao seu ilustre fundador.
Não bastasse a elasticidade pragmática que lhe é peculiar, agora Kassab dá mais uma tacada de mestre, assustando até os antigos mandatários do PMDB. Trata-se da criação, ou melhor, da refundação do extinto PL. O mais impressionante disso tudo são os filiados do PSD na luta para coletarem assinaturas a fim de dar vida a um partido que não é deles. Certamente, estão empenhados por mais "um programa a favor do Brasil".
Kassab sabe que partejar um novo partido é expediente aceito pela legislação capaz de burlar a fidelidade partidária e, com isso, redistribuir as peças no tabuleiro do jogo político e acoplar à sua órbita os descontentes em outras siglas. Com isso, ele terá em breve, sob seu comando, dois partidos políticos e a maior bancada no Congresso Nacional. Sai fortalecido para dar cartadas mais altivas em um cenário que mais se assemelha a um balcão de negócios do que a um espaço de debates republicanos.
Nessa entoada, a composição das bancadas no Congresso Nacional fica mais distante do eleitor. Conquistar grandes bancadas obrigava que os partidos suassem a camisa e batalhassem pelo voto do eleitorado. Kassab descobriu um atalho que o aproxima do poder mesmo que para isso seja preciso alijar ainda mais o processo eleitoral e a legitimidade democrática que este representa. Avançamos por um lado e retrocedemos por outro. É a síndrome do caranguejo.


