Dos 9 aos 16 anos, a gaúcha Daniele Vuoto - hoje aos 22 -, sofreu com piadinhas de todos os tipos envolvendo sua aparência. Aos 16, deixou a escola para se submeter a um tratamento psicológico e psiquiátrico. ''Tinha muito medo das pessoas e achei que aquilo nunca acabaria, me fechei completamente'', relembra. O exemplo de Daniele é um dos muitos casos evolvendo o bullying. Termo inglês utilizado para descrever atos de violência física ou psicológica, intencionais e repetidos, praticados por um indivíduo (ou grupo) com o objetivo de intimidar ou agredir outro indivíduo incapaz de se defender, o bullying não é brincadeira. E destrói a auto-estima.

Em entrevista à FOLHA, Daniele, autora de um blog que trata do assunto, explica porque o bullying não tem graça e é considerado violência. ''Brincadeira não traumatiza, não acaba em suicídio nem nos atentados escolares que vemos no noticiário. Brincadeira tem graça para todos os envolvidos'', dispara.

Quais os efeitos do bullying em sua vida?
A auto-estima se destrói com o bullying. Depois de tanto ouvir, a gente de alguma maneira acaba acreditando nas coisas ruins que dizem de nós. Foi uma época muito complicada, me fechei completamente. O tratamento inicial que recebi também foi equivocado. Por falta de informação dos médicos, passei 11 dias no hospital recebendo medicação para esquizofrenia, e não para a depressão/síndrome do pânico que eu realmente tinha. Minha família e o Rafael - hoje meu noivo, à época namorado - sofreram muito com tudo que aconteceu. O bullying não afeta só a vítima, e sim todos que fazem parte de sua vida.

Qual deve ser a reação de uma pessoa diante das intimidações?
Acredito que não exista uma receita: algumas pessoas respondem aos agressores e isso resolve, outras respondem e a situação piora. Então, penso que o melhor seja compreender que sofrer bullying não é motivo de vergonha. Vergonha é a escola ver o que acontece e não tomar uma atitude.

O silêncio não ajuda?
Só piora as coisas. É essencial que a vítima de bullying conte aos pais ou a alguém de confiança para que os mesmos conversem com o Serviço de Orientação Educacional (SOE) ou com a direção da escola.

O que leva as pessoas a praticarem o bullying
Insegurança. É importante compreender que quem pratica o bullying não é de fato um ''valentão'', e sim um aluno com uma dor camuflada, que também precisa de ajuda. Se age assim, é por algum motivo: presenciar ou sofrer violência em casa, ser ridicularizado por parentes, receber pouca atenção da família, ouvir discursos racistas vindo dos pais, vendo agressões físicas e verbais como parte do dia-a-dia. Aí, acaba reproduzindo na escola o que aprendeu como aceitável desde o berço.

As instituições e famílias ainda permanecem omissas? Ou esse cenário mudou?
Felizmente a situação está mudando. Claro que ainda existem escolas que consideram bullying uma bobagem, negam que isso aconteça naquela instituição, assim como muitas famílias consideram isso frescura, uma brincadeira. Brincadeira não traumatiza, não acaba em suicídio nem nos atentados escolares que vemos no noticiário. Brincadeira tem graça para todos os envolvidos. Então bullying não é brincadeira: é uma forma de violência. Tenho um blog e, nos e-mails que recebo, vejo que cada vez mais pais e professores têm se interessado pelo assunto. O bullying precisa ser levado a sério.

Como brecar os casos envolvendo apelidos e afins?
Com diálogo, olhar atento e exemplo. Não adianta uma família que menospreza as pessoas pedir para o filho não fazer isso. Exemplo vem em primeiro lugar, tanto na família quanto na escola. Olhar atento de não deixar a situação passar, fingir que não aconteceu. Quando algo acontecer, não importa se é dia de prova: pare tudo. Converse com alunos, se gostariam que fizessem algo assim com eles, se achariam graça em serem chamados de algo que os machuca. É um conceito muito simples a se ensinar na verdade: tratar o outro como gostaria de ser tratado. E talvez o principal seja a prevenção, desde o início das aulas propondo a construção coletiva de regras de convivência da turma, assistindo a filmes sobre o assunto com os alunos, esclarecendo o tema para toda comunidade escolar, motivar os alunos a pesquisarem sobre o tema, realizar teatros, jornais, etc. As possibilidades são muitas e não se trata de um custo a mais para a escola. Basta querer.

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