Opinião Atualizado em 14/10/2019, 00:00
Sindérese: a centelha da consciência
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segunda-feira, 14 de outubro de 2019
Espaço Aberto 
Tomás de Aquino dispensa qualquer tipo de apresentação. Hoje mais do que nunca posso afirmar que sua figura e genialidade ajudariam a muitos e muitas a não confiarmos tanto na nossa “docta Ignorantia”.
A docta ignorantia ja tinha sido preconizada pelo próprio Sócrates, também por Agostinho e por Boaventura; mas seu grande expoente foi Nicolau de Cusa. Afirma que o único caminho que nos conduz a verdade é em definitivas a oposição dos contrários. Cusa distinguia quatro graus de conhecimento: 1) os sentidos, que nos dão imagens confusas da realidade; 2) a razão, que lhes proporciona ordem; 3) o intelecto ou razão especulativa, que as unifica; e, finalmente, 4) a contemplação intuitiva, que alcança, na ascensão a Deus, o conhecimento da unidade dos contrários.
A tese de Cusa é válida só que pertence a uma decadente filosofia medieval; digo isto sem preconceito nenhum. Todos o sabemos a decadência do pensamento filosófico teve aqui seu grande desenvolvimento devido ao ecletismo e misticismo que levaram a uma perda da procura da Verdade.
Seria muito bom optar como Tomás de Aquino pelo caminho inverso. Tomás libertou-se de misticismos e neo platonismos e na hora de procurar a Verdade decidiu guardar silêncio. Tomás prefere o silêncio! Isso mesmo. Ele não se calou não. Só guardou silêncio.
O fruto do silêncio é a prática da virtude da prudência. Quem é prudente sabe no fundo da sua consciência que nela a Voz de Deus deve ser ouvida e seguida. Quem descarta a prudência falará por falar e acabará dizendo coisas sem
Valor; e muitas as vezes terminará por se confundir. A consciência reta sempre falará eloquentemente a verdade que nos liberta e nos enche de alegria. A sindérese é a centelha da consciência reta. Ajudando a agir corretamente nos permite evitar escândalos e sobre tudo a não causá-los. Considero que o maior escândalo da sociedade contemporânea é a manipulação da verdade, a utilização de comentários descabidos e a afirmação mediada por conveniências do que em realidade são as coisas.
Todos nós podemos trabalhar e adquirir a sindérese sempre e quando nossa intenção não esteja nem viciada nem comprometida com a mentira ou a falsidade.
A sindérese sempre conduz a consciência ao espaço da caridade. O grande Papa Leão XIII; assim o expressou na sua Encíclica Libertas Prestantíssimum, onde se expõe a doutrina católica sobre a questão da liberdade dos atos humanos. Leão XIII lança uma ampla luz sobre esta questão. Ele demonstra que o primeiro lugar na escala de valores do homem, ajudando-o a escolher o reto caminho para o seus atos, é ocupado pela “Lei Natural, que está escrita e gravada na mente e no coração de cada pessoa. Esta Lei natural universal conduz a todos nós a sermos honestos e francos sempre e quando tenhamos caridade.
Aquilo que tenho a dizer sobre os outros devo dizê-lo no ambiente caridoso e generoso sem expor publicamente o que a todos de um ou de outro lado sempre irá a afetar. É urgente resgatar a comumente conhecida “camera caritatis”. O quarto da caridade; o espaço do sigilo e do pudor para evitar a exposição pública .
Me vem neste momento ao coração a imagem do grande G.K Chesterton convertido ao catolicismo quando afirmava: “Há grandes homens que fazem com que todos se sintam pequenos. Mas o verdadeiro grande homem é aquele que faz com que todos se sintam grandes”.
Quando você diminui alguém, quando você expõe na janela pública os defeitos ou limitações de uma instituição ou de uma pessoa você diminui a si mesmo.
A verdade tem que ser dita sempre e quando seja dita com caridade e isto só é fruto da prudência.
Hoje pessoas cultas e inteligentes sem a mínima prudência e respeito agridem grupos inteiros em prol de uma verdade que nem eles mesmos conhecem. Se confabulam com a falsidade e são pagos de forma simoníaca por grupos mercantilistas da mídia e do comércio. Ostentam amizades refinadas e títulos de bondade quando na verdade são incapazes de reconhecer na humildade que transgrediram e ultrapassaram o limiar das mínimas normas de urbanidade.
A história não é uma noite obscura onde todos os gatos são pardos ou onde estamos todos dentro de um elevador e descemos na época que nos convém como afirmava Hegel. A história é História da salvação onde o tempo tem sabor de eternidade e onde só podemos respirar um ar: “Que todos cheguemos ao conhecimento da Verdade”; dar um passo ajudados pela sindérese vai-nos tornar pessoas o suficientemente prudentes como para não mais nos agredirmos. O caminho da prudência como virtude é exigente e a sua via é aquela do diálogo. Empreendamos a marcha; só se faz caminho ao dialogar!
JOSÉ RAFAEL SOLANO DURÁN
Cura da Catedral Metropolitana de Londrin


