Sinal amarelo
PUBLICAÇÃO
domingo, 18 de maio de 2003
Tarcísio Vanderlinde 
O ritual de iniciação a que calouros são submetidos ao entrar na universidade, uma aparente brincadeirinha inocente, não raras vezes, num processo de exacerbação, se transforma num humilhante ritual que afeta a dignidade da pessoa e pode trazer outros prejuízos. Há quem considere tudo isso algo normal, quando não banal, e este posicionamento então, não seria mais do que uma reflexão retrógrada ou anacrônica.
Neste caso não haveria muito o que fazer. No entanto, há pessoas, que sempre tiveram dificuldades em entender o ritual e consideram que alguns limites estão sendo perigosamente ultrapassados. Por outro lado, tem a agravante que muita coisa é feita na cumplicidade e meio escondida, o que dificulta uma justa compreensão do fato.
Muitos estudantes da nossa época, quando ingressaram na Universidade Federal do Paraná, foram convidados a doar uma quantia de sangue ao hospital da universidade, num ato simbólico para marcar aquele momento. A impressão que dá, quando se observam os rituais atuais, talvez mais sintonizados com as aspirações do tempo presente, é que houve uma lamentável regressão. O problema não é generalizado, mas há suspeitas que pode estar havendo excessos, e em alguns casos, o sinal amarelo já está aceso.
O que está acontecendo é que, por temor ou vergonha, as pessoas humilhadas não fazem a denúncia. É do conhecimento de muita gente que alguns desses rituais não acabaram bem, provocando inclusive morte e prisão de estudantes, deixando uma mancha nas academias onde os fatos aconteceram. De um lado, veteranos desencadeando discursos e ações que só Freud explicaria melhor. Noutro, calouros desconfiados, acuados, que a tudo se submetem e fazem do silêncio um procedimento padrão para evitar maiores retaliações.
Talvez estejamos equivocados e não consigamos perceber as nobres intenções que motivam as diversas barbáries dos tempos pós-modernos, de onde nem a aldeia escapa. Tampouco, está se propondo a extinção da iniciação. Mas em decorrência do adiantado da hora, já é tempo de propor atividades mais inteligentes e menos degradantes. Não será fácil superar a inércia dos rituais degradantes, mas alguns bons exemplos já existem e outros poderão florescer.
Os calouros que sobreviveram desta vez, poderiam fazer uma leitura alternativa da experiência e propor para o próximo trote um salto de qualidade, ao invés de prosseguir com a deplorável tradição de descontar nos outros. Poderiam ser inventadas novas tradições que dignificassem mais o próprio acadêmico como ser humano que é.
Embora como metáfora imperfeita para lidar com o assunto, a inércia pode ser superada a partir daí. Muitos concordariam que talvez não fosse prudente esperar o sinal vermelho. Esta é pelo menos a posição de um ex-calouro da Universidade Federal do Paraná.
TARCÍSIO VANDERLINDE é professor da Unioeste em Marechal Cândido Rondon


