Estranho, esse escândalo - ou ameaça de escândalo - que dominou o noticiário e as fofocas políticas das duas últimas semanas. Já começa com os sinais trocados. Por tudo o que já se falou sobre a conta secreta da empresa CH, J & T no paraíso fiscal das Bahamas, esta era uma investigação com cara e coroa: por ordem de entrada em cena, o lado cara resultou na denúncia que amigos e parentes do candidato Paulo Maluf tentaram empurrar para a deputada Marta Suplicy.
O lado coroa é o da investigação supostamente feita por pessoas ligadas ao pastor evangélico Caio Fábio, que teria tentado intermediar a venda das informações a diversos candidatos da oposição. Vamos começar por esse lado. Sendo ele mesmo um evangélico de esquerda, ligado a políticos e partidos de oposição, seria de se supor que as denúncias que Caio Fábio oferecia não custariam nada aos candidatos de sua simpatia. Certo? Errado.
As pessoas que o pastor dizia conhecer queriam dinheiro pelas informações sobre a conta que, segundo acusavam, pertenceria ao ex-ministro Sérgio Motta e tucanos variados. Queriam dinheiro grosso, nunca menos do que US$ 1,5 milhão ou US$ 2 milhões.
Parece um comportamento de arapongas mercenários, não de oposicionistas revoltados com a suposta corrupção em altos escalões. Mas, se são mercenários, o que está fazendo nessa companhia, então, o pastor Caio Fábio? Intermediar esse tipo de transação não é bem o que se espera de um evangélico que sempre se apresentou como o oposto de seus colegas da Igreja Universal do Reino de Deus e assemelhadas (aqueles pastores para quem templo é dinheiro).
Do outro lado, a turma do ex-prefeito Paulo Maluf. Desesperados, vendo o governo paulista fugir de seu alcance, Maluf e amigos põem a mão em informações e documentos que poderiam - se verdadeiros - destruir politicamente Mário Covas.
O que fazem? Revelam o que sabem, expõem os documentos ao exame do País? Não. Procuram seus inimigos mortais, os petistas. Querem que eles façam a denúncia. Ela teria mais credibilidade se feita pelo PT, explicam candidamente.
Fica registrado então que nem os malufistas mais chegados a Maluf acreditam na sua própria credibilidade. Ou não acreditavam no valor dos documentos que queriam passar adiante.
Acreditavam, ou fingiam acreditar, que os petistas têm o hábito de assinar cheques em branco: se Lula e Marta Suplicy - que nem disputavam mais nada no segundo turno - entrassem de gaiatos na história de Maluf, correriam todo o risco de fazer uma denúncia falsa. Mas se ela fosse verdadeira, Maluf colheria todas as vantagens. Seria o proverbial acordo entre o pescoço e o machado, com o PT no papel de pescoço.
Sobra desconforto - além do de se ver envolvido em denúncias desse tipo - para o presidente Fernando Henrique. Ele foi seletivo em seu desabafo de sexta-feira. Falou só das figuras expurgadas da vida pública que agora aparecem fazendo denúncias contra ele.
Mas esses - referência óbvia ao ex-presidente Collor e seus amigos - são personagens secundários desta história. O presidente esqueceu de Maluf, o personagem principal, que não foi expurgado. Ao contrário, é seu aliado. E foram seus adversários, do PT, que protegeram o presidente do suposto amigo. Sinais trocados, mesmo.
- ARMANDO MENDES é jornalista em Brasília

mockup