Os resultados apontados pelas pesquisas, até o presente, estão a indicar que o eleitorado brasileiro está apostando firmemente no conceito de mudança. Basta conferir a situação dos pleitos estaduais, onde a maioria significativa dos perfis se impregna de valores identificados com renovação. Certos candidatos até podem ser velhos conhecidos dos eleitores, mas, quando comparados com os adversários, expressam de maneira mais densa as expectativas da população, sintonizadas com a abertura de novos horizontes, mudanças no estilo de governar e o desejo de quebrar sistemas oligárquicos. O eleitor quer despachar para um tempo no purgatório políticos com cheiro de mofo. Alguns, com muito mofo.
No Acre, o governador Jorge Viana (PT) é um ícone da luta contra o caciquismo e bandidagem. Será eleito no primeiro turno. No Amazonas, o perfil jovem de Eduardo Braga (PPS) derrubará o velho boto tucuxi, Gilberto Mestrinho (PMDB). No Mato Grosso, o empresário Blairo Maggi (PPS) é quem mais se identifica com renovação, podendo ultrapassar o senador Antero Paes de Barros (PSDB). No Pará, o jovem senador Ademir Andrade (PSB) expressa o desejo de mudança e deverá vencer com o voto oposicionista o candidato do governo, Simão Jatene (PSDB). No Maranhão, Jackson Lago (PDT) representa a oposição contra José Reinaldo (PFL), que mesmo apoiado pela ex-governadora Roseana Sarney, a ser eleita senadora, tem poucas chances. No Piauí, a situação é mais emblemática. Wellington Dias (PT) passou Hugo Napoleão (PFL) e mostra que, em um dos mais pobres Estados da Federação, o eleitor está atento. Aliás, os piauienses gostam de surpreender. Em 1986, Freitas Neto (ex-PFL, hoje PSDB) tinha o apoio de 97% dos prefeitos e a força dos três senadores, mas acabou perdendo o governo para Alberto Silva (PMDB).
No Rio Grande do Norte, a ex-prefeita de Natal, Vilma Faria (PSB), com seu perfil de guerreira, está surpreendendo, identificando-se melhor com o espírito de mudança e mantendo uma liderança desde o início da campanha, mesmo com parcos minutos na mídia eleitoral. Mas há de se considerar a força do Governo, em um segundo turno, e a boa performance televisiva do governador Fernando Freire (PPB), cuja chapa poderá eleger os dois senadores. O quadro, hoje, tende mais para Vilma. Na Paraíba, a renovação tem o nome de Cássio Cunha Lima (PSDB), o jovem ex-prefeito de Campina Grande. Em Minas, Aécio Neves (PSDB) vai arquivar o tratorzão Newton Cardoso (PMDB). No Rio, o charme de Rosinha Matheus dará ao PSB um governo comandado por mulher e um palanque para Garotinho remontar sua candidatura presidencial em 2006. Em São Paulo, Maluf (PPB) parece ter chegado ao final da reta, conseguindo, mais uma vez, a façanha que o caracteriza: morrer antes de chegar à praia. Geraldo Alckmin (PSDB) deverá ganhar. No Espírito Santo, o jovem senador Paulo Hartung (PSB) encarna a bandeira da renovação. E Zeca do PT continuará a governar o Mato Grosso do Sul. Quando o candidato é um governador muito aprovado, o povo dá a benção, como é o caso de Jarbas Vasconcelos (PMDB), em Pernambuco e Esperidião Amin (PPB), em Santa Catarina.
Uma leitura mais apurada desses resultados parciais indica, ainda, a relatividade do fator mídia eleitoral nas campanhas. Os tempos de alguns candidatos são muito pequenos, mas o eleitor acaba tomando decisão sem se deixar levar pela maior exposição de um perfil na mídia. Nesse caso, ao internalizar o conceito expresso por seu candidato, o eleitor o protege com uma couraça insensível às pressões do meio ambiente. Ou seja, cria-se uma cumplicidade entre ambos, algo como um compromisso de coração e mente, que benesse nenhuma tem condições de mudar. Nem mesmo os presentes dos fundões do país: óculos, dentaduras, tijolos e telhas, cestas básicas e aparelhos domésticos. É bom se lembrar do ditado nordestino adaptado para a política: água de morro abaixo, fogo de morro acima, eleitor quando quer votar num candidato, ninguém segura.
GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor titular da USP e consultor político

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