Para alguns não foram mísseis quaisquer os disparados contra fanáticos religiosos suspeitos de serem os mandantes dos atentados às embaixadas dos Estados Unidos no Quênia e na Tanzânia. O bombardeio americano que atingiu o Sudão e o Afeganistão seria a espoleta da primeira declaração de guerra do século XXI: uma guerra entre civilizações.
A idéia de um choque entre culturas como combustível de conflitos tem um pai - o cientista político americano Samuel Huntington. Ele propôs em seu texto ‘‘The Clash of Civilizations’’ (um cult das relações internacionais mais pelo fato de ser uma idéia simples do que original) que os conflitos do próximo século ocorreriam nas linhas de fricção entres as várias civilizações - árabe, hindu, latino-americana...
O choque de civilizações é uma tese interessante mas que não deve ser levada tão a sério. Não é suficiente para explicar as tensões do mundo do próximo milênio. Pois há mais variações de civilização do que as propostas por Huntington. E, ao mesmo tempo, o fosso cultural que marcava a geografia do planeta se encurtou com as novas tecnologias de comunicação e hábitos de consumo mundializados.
O que parece haver hoje são novos, mais claros e perenes abismos dividindo o mundo e as nações. Uma forma recente de divisão do mundo parece ser ditada pela vulnerabilidade dos países ao fluxo financeiro mundial.
De um lado, estão as potências fiscais, com déficits controlados; de outro, os países emergentes, vulneráveis, prontos a sofrer um ataque especulativo, que os lançaria no caos econômico.
Na semana passada (e sabe-se lá por quanto tempo ainda), países tão diferentes como Rússia, Venezuela e Malásia receberam essa nova classificação. Uma taxionomia do fracasso e da incerteza.
Nações unidas pela vulnerabilidade e não separadas por suas civilizações. As divisões econômicas do mundo ainda parecem ter mais validade e consequências do que as rupturas culturais.
Mas todos esses rótulos que sugerem conflitos (países emergentes e não; Primeiro Mundo e Terceiro; árabes e anglo-saxões...) são quase etéreos e pouco práticos se comparados com uma divisão econômica mais marcante: a que separa empregados e desempregados.
Não se trata de uma luta de classes tradicional, que opõe uma elite empregada e pobres miseráveis. Claro que aqueles com maior grau de instrução têm potencialmente mais chances do que aqueles nascidos em países com péssima tradição de ensino.
Pois a esse conflito social moderno todos estão sujeitos. O empregado americano da General Motors nos Estados Unidos tem seu emprego ameaçado pela fábrica brasileira da empresa que é mais produtiva; o japonês especialista em miniaturização sofre com a produtividade chinesa movida a baixos salários.
As ‘‘guerras’’ deste fim de século e do próximo se darão entre cidadãos do mundo com alto grau de empregabilidade e aqueles desempregados. Não há sinais de paz.
- LUIS ALBERTO WEBER é jornalista em Brasília

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