Sinais
de fadiga
Nos últimos três anos o Plano Real governou o Brasil. Não importa muito quem estivesse na cabina de comando, o plano funcionou como se fosse uma espécie de piloto automático: a nave deixou a zona de turbulência de hiperinflação e navegou no espaço de uma economia estabilizada, para alegria da tripulação e encanto dos passageiros.
Neste período, os governos desfrutaram altos índices de popularidade, graças ao alívio proporcionado pela queda da inflação e a consequente recuperação do poder de compra de amplas camadas da população. As responsabilidades de governo se tornaram tão leves que o segundo presidente do Plano Real pôde afirmar, após um ano e meio de mandato, que ‘‘nunca foi tão fácil governar’’... Na realidade, o piloto automático continuava realizando a tarefa...
Houve quem avisasse que havia tuburlência na rota, mas ninguém prestou muita atenção à advertência de que o período de encantamento estava terminando. Num artigo recente publicado na ‘‘Folha de São Paulo’’, por exemplo, o professor Antônio Barros de Castro, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, mostrou que os efeitos da distribuição de renda já haviam cessado em favor dos trabalhadores. E mais ainda: que a massa de salários encontra-se virtualmente estagnada desde meados de 1996. ‘‘A estabilidade - diz o professor - começa a ser encarada como uma situação normal e o Plano Real está passando por uma fase de desencantamento’’.
Com ênfase semelhante, tivemos oportunidade de alertar o governo para o agravamento do clima social no país, não apenas porque cessaram os efeitos da distribuição da renda, mas em virtude da cruel discriminação representada pela eliminação de milhares de postos de trabalho. Não se pode considerar trivial o fato revelado em pesquisa de opinião, na qual 67% dos entrevistados apontaram o desemprego como o problema número 1.
Na raiz do aumento dramático das tensões que ora se verifica - e que nenhum piloto automático será capaz de corrigir - está a incrível ‘‘aposta’’ do governo de que o país manterá o equilíbrio social com a economia crescendo, no limite, apenas 3% ao ano! O que, na prática, significa ignorar o drama das famílias de milhões de sem-emprego e sem-cidadania!
Apesar do enorme esforço de propaganda para manter o ‘‘encanto’’ do Plano Real, a população começa a se inquietar diante da alienação do governo face a problemas como: dificuldade de encontrar trabalho, mesmo na famigerada (e louvada pelo governo) ‘‘economia informal’’, o aumento da insegurança no campo e nas cidades; o desmantelamento dos serviços públicos essenciais, especialmente no atendimento à saúde; a injustificada e cruel erosão dos rendimentos dos aposentados. E, mesmo com a acomodação de uma parte da mídia, as pessoas vão se informando que o baixo crescimento da economia decorre do constrangimento externo produzido pela sobrevalorização do real. A política econômica é refém do mercado financeiro internacional. Não pode baixar os juros porque depende dos investimentos especulativos externos que nada produzem e não criam empregos. Aumento de renda, só no setor financeiro.
Transcorridos três anos, o piloto automático dá sinais de fadiga. Baixos níveis de crescimento com piora na distribuição de renda e endividamento externo são receita certa de tuburlência. Está na hora do governo assumir o comando e começar a governar o Real.
- ANTÔNIO DELFIM NETTO é deputado federal (PPB).

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