Se Simón Bolívar pudesse reviver para estar presente no primeiro encontro dos 12 presidentes da América do Sul, realizado ontem e anteontem em Brasília, possivelmente iria concluir que seu sonho de fazer da América Espanhola ‘‘a maior nação do mundo’’ através da unificação das várias tendências políticas, estava de certo modo retornando nos giros da história, só que de maneira bem diversa da do seu tempo e incluindo o Brasil como ator principal.
Interessante é que nas lutas de independência, que originaram os Estados da América meridional, Bolívar voltou sua preocupação para gigantesca monarquia de origem portuguesa, o colossal Brasil que lhe parecia uma ameaça aos ideais de libertação das emergentes repúblicas hispano-americanas. Em carta escrita em Lima ao general Francisco de Paula Santander, em 23 de janeiro de 1825, assim se expressará o Libertador em alguns trechos:
‘‘De Olañeta (general que esteve sob o comando de Sucre) ainda nada sei, mas temo que trate de nos enganar juntamente com o imperador do Brasil’’. ‘‘Infelizmente o Brasil limita-se com todos os nossos Estados; por conseguinte, tem muitas facilidades para nos fazer a guerra com sucesso.’’
Entretanto, o venezuelano que representava a ‘‘elite crioula’’ do início do século XIX, e cujo nome completo era Simón José Antonio de la Trinidad Bolívar y Palacios, viu seus sonhos de união se desfazerem não por conta da interferência brasileira, mas por causa dos desentendimentos das lideranças americanas, o que por sua vez o levou a vislumbrar a dificuldade de reunir nações que já se apresentavam conscientes de suas individualidades e interesses particulares.
Depois de intensa participação na política e nos campos de batalha, Bolívar, um dos maiores heróis da América Latina, veio a morrer ainda moço aos 47 anos de idade, no dia 17 de dezembro de 1830. Sua amargura e desencanto ficaram gravados em vasta correspondência, e um pouco antes de morrer ele demonstrou todo seu pessimismo da seguinte maneira: ‘‘Comandei durante vinte anos, e não tirei deste lapso de tempo senão alguns resultados certos: a América é, para nós, ingovernável; aquele que trabalha por uma revolução labora no mar; a única coisa a fazer na América (Latina) é emigrar; este país (a Grande Colômbia, partilhada sucessivamente entre a Colômbia, a Venezuela e o Equador) cairá infalivelmente nas mãos da populaça desenfreada para passar em seguida para a dominação de obscuro tiranetes de toda a cor e de toda a raça; entregues a todos os crimes e esgotados por nossos cruéis excessos, os europeus não procurarão sequer reconquistar-nos; se acontecesse que uma parte do mundo voltasse ao caos primitivo, isso seria a última metamorfose da América (Latina).’’
Em 1975, outro venezuelano, o polêmico jornalista Carlos Rangel, também deixou verter em seu notável livro ‘‘Do Bom Selvagem ao Bom Revolucionário’’, não só uma impressionante lucidez mas o amargor dos que como Bolívar e ele chegam a desanimar diante dos desafios latino-americanos. E em relação ao Brasil, dirá Rangel:
‘‘Seria nitidamente abusivo falar de maneira geral de uma América Latina onde o Brasil fosse incluído como mais um componente. O Brasil diferencia-se da América espanhola não só por sua origem lusitana e a língua portuguesa mas também pela forma como foi conquistado e colonizado seu território, e pelo fato de ter sido parte constituinte da metrópole do império português durante longos anos ao fim dos quais, em vez de ser marcado por uma ruptura traumatizante com Lisboa, obteve a sua independência por um ato do governo, por um decreto, conservando intactas as estruturas políticas e administrativas do império de que ele se separa. Em resumo, pode-se dizer que existem pontos comuns, afinidades, um parentesco entre o Brasil e a América Espanhola, mas que as suas diferenças levam de vencida as suas afinidades.’’
Carlos Rangel já morreu, mas o que diria se ainda estivesse vivo, diante da reunião dos 12 presidentes da América do Sul na qual nitidamente o Brasil se investe da liderança econômica e política perante os demais Estados hispano-americanos?
A partir desse encontro, mais simbólico do que efetivo em termos de realizações concretas imediatas, estará sendo dada sequência ao processo de fortalecimento da América do Sul como bloco econômico diante de outros em âmbito mundial e, principalmente, com relação aos Estados Unidos.
A idéia mais importante, arquitetada pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, é a de integrar o Mercosul à Comunidade Andina, atraindo também o Chile, a Guiana e o Suriname de modo a formar uma área de livre comércio que englobaria todos os países da América do Sul. Sugestões relativas à manutenção da democracia, formação de uma ‘‘zona de paz’’ e criação de um fundo sul-americano de ciência e tecnologia, são muito interessantes e têm o sabor agradável da diplomacia, mas não são fundamentais como o plano de criação da rede que fortaleceria os países sul-americanos diante, inclusive, das negociações relativas a criação da Alca (Área de livre Comércio das Américas), prevista para 2005.
Evidentemente, o caminho para alcançar a integração da América do Sul não é fácil. Ontem, como hoje, os interesses assim como os diferentes níveis de desenvolvimento das diversas nações são fatores que dificultam a união, que nos Estados europeus levou mais de vinte anos para se concretizar. E exemplo da dificuldade de entendimento já aparece na questão do combate ao narcotráfico, especialmente diante do apoio que os Estados Unidos darão à Colômbia. Nenhum país sul-americano, e muito menos o Brasil, quer se envolver nesta luta, como se a questão não dissesse respeito de forma vital a nenhum deles, exceto aos colombianos.
Em todo o caso, lembremos das palavras que no início do século passado, José de San Martín escreveu a Bolívar: ‘‘E chegado o momento de nos reunirmos para decidir a unidade da nossa América, para lutar pelo bem-estar de nossos povos e mostrar a eles que a independência tem sentido.’’ Será que esse momento chegou?
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga, escritora e professora universitária em Londrina
E-mail: [email protected]

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