Londrina, a Pequena Londres, guarda segredos. Símbolos e homenagens aos britânicos, gravados na terra vermelha.

Em 1930, dois anos antes do projeto da cidade, um jornal da Capital trazia: “Os ingleses, para não ferir a sensibilidade dos locais, deram o nome de Norte do Paraná para a Companhia de Terras (CTNP) e São Paulo-Paraná para a Companhia Ferroviária (CFSPP). Finalmente, fariam uma auto-homenagem, dando o nome de Londrina à estação da SPP”.

Londrina (Razgulaeff, 1932) tinha traçado xadrez. Seguia a tradição de cidades do interior. Ficava no cruzamento de duas ferrovias projetadas: a EFCP ajustada e a CFSPP (Yamaki, 2017). A Matriz ficava no alto e, junto, no lado Norte, a Praça Principal. A antiga picada definia uma diagonal. Atravessava o conjunto de Leste a Oeste. Estação Ferroviária e Cemitério ficavam em encostas opostas.

O motivo da bandeira do Reino Unido seria adotado na reforma da Praça da Matriz (1943) e na Necrópolis (1950) em Londrina. Sobre a origem do traçado, encontrei há alguns anos, referência num patrimônio projetado pela Brasil Plantations Syndicate Ltd -BPS no empreendimento do Noroeste de São Paulo. Essa praça ficava junto à avenida Brittania. Foi simplificado, na transferência do empreendimento da BPS para a sucessora Companhia de Terras Norte do Paraná – CTNP (1938). Permaneceu, todavia, o nome Brittania da avenida, atestando a relação com os britânicos. Esse traçado seria adotado, com algum ajuste, em Londrina.

Podemos visualizar detalhes do traçado interno da Necrópolis em Londrina, na Planta Aerofotogramétrica de 1950. Um conjunto de pranchas em papel linho que resgatei nos arquivos da Prefeitura (Yamaki, 2003).

A reanálise da planta do cemitério São Pedro em Londrina (1950) mostra proximidades com o traçado da Praça Matriz. O cemitério é um mosaico de bandeiras do Reino Unido. Paralelas e diagonais com pequenas praças no centro de cada módulo. Tinha dois acessos: o principal pela rua Consolação, continuação da avenida com início na estação e outro pelo futuro contorno. Quem entra, tem acesso pelo eixo central e a praça maior. Na outra ponta, o acesso por um monumental tridente. Cada lado expressa uma linguagem: cerimonial ou monumental. Tal qual uma gravura de Escher, o cemitério permite várias leituras: o forte simbolismo do mosaico de bandeiras do Reino Unido ou, para alguns, um sutil e pouco provável coração.

Cidade com forte ligação com os britânicos, Londrina não deve esquecer dos símbolos e homenagens que estão profundamente gravados na terra vermelha. Antigamente, num dia de fortes ventos, os pinheiros que contornavam o cemitério uivavam. Numa próxima visita, tente ouvir e imaginar. Resgatar símbolos e segredos.

Humberto Yamaki, coordenador do Três Boccas Laboratório de Paisagem

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