Símbolo máximo do Plano Real, o frango está em crise. Exemplo da estabilidade econômica em 1994, quando o governo lançou o pacote econômico de combate à inflação e incluiu o produto na dieta do brasileiro, a proteína animal mais barata do mercado já não cabe no carrinho de compras do consumidor. Resultado: os avicultores decidiram reduzir a produção para segurar os preços, que ameaçam despencar mais. ''Temos que nos adequar ao tamanho da boca do consumidor'', diz um empresário do setor à reportagem da Folha, na edição de hoje.
O fato é que está sobrando frango nas gôndolas, situação agravada pela queda das exportações do produto que se beneficiou da crise da vaca louca e foi bem aceito pelo mercado europeu nos últimos meses. Passado o pânico pelo consumo de carne bovina e terminada a abstinência européia, ao franguinho brasileiro só restou o mercado interno. O problema é que o cenário é outro daquele de 94, na euforia do Real. O preço do quilo do produto, na época de R$ 1,40, é até menor hoje em torno de R$ 1,29 mas o poder de compra do consumidor emagreceu desde então.
Apesar da inflação estar sendo mantida em níveis muito inferiores aos do período que antecedeu o Real, o orçamento do consumidor tem sentido a alta de tarifas públicas e dos chamados preços controlados (combustível e telefone, por exemplo). Nos últimos anos, vem daí a principal pressão sobre a inflação.
Com salários congelados, reduzidos ou suprimidos, a saída do consumidor é enxugar a lista da mercearia. Os números dos institutos de pesquisa de preços traduzem o que se passa na economia real, a das cadernetas domésticas: durante os oito anos do Real, a energia elétrica subiu 141%; a água, 151%; a gasolina, 209%; o botijão de gás, 398%; e a conta de telefone, 445%. No mesmo período, o reajuste da cesta básica não chegou a 50%. A boca do governo ficou maior.
Ruth Meira

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