Sim: gato escaldado tem medo de água fria
O dito popular acima representa o estado de espírito de alguns londrinenses, quando o assunto é a venda da Sercomtel Celular. Afinal, o que foi feito dos mais de R$ 200 milhões obtidos com a entrega de quase metade de seu patrimônio? Eu mesmo tentei, vezes sem fim, um encontro de contas entre as propaladas obras da gestão anterior e os recursos obtidos com a venda daquelas ações. Em vão. A conta não fecha. Se fecha, os vultosos recursos direcionam-se para campanhas eleitorais e afins pouco nobres, mas não para obras e serviços, como apregoavam à época, os arautos daquele verdadeiro pandemônio.
Quem confiou, sente-se traído. Não é para menos. Muitos dos que acreditaram que os recursos iriam para obras e serviços, constatam hoje que tudo não passou de uma trama, bem urdida, para que particulares tomassem posse do patrimônio alheio. Agora, têm dificuldade em confiar outra vez.
Há os que, simplesmente, não querem dar ao prefeito dinheiro, com o surrado argumento de que isso o beneficiaria às vésperas de uma eleição. Outros, diante do fracasso da política federal, já não podem ouvir falar em privatizações.
Tem os que fazem uma salada. Pensam que se trata da privatização de toda companhia. O que não está nem em discussão. Estes, misturando alhos com bugalhos, são contra, e pronto!
É certo que a Sercomtel S/A é exemplo de sucesso administrativo e tecnológico. Entretanto, enganam-se os que acham que este sucesso aconteceu apenas porque os técnicos da companhia eram (e são) bons. A Sercomtel S/A vicejou também porque sempre esteve protegida das leis de mercado. Nunca teve que disputar, a tapas e pescoções, com outras similares. Menos ainda com multinacionais que faturam bilhões de dólares ao ano, sempre tiveram gestão privada, nasceram e cresceram em um ambiente altamente competitivo.
Só que, agora, as leis mudaram. Além de ser obrigada a manter-se apenas em Londrina e Tamarana, a Sercomtel Celular deve disputar com estas mesmas multinacionais, dentro da cidade. O que era solução, tornou-se problema!
A Global Telecom, que atua no mundo todo, pode dar-se ao luxo de adquirir alguns milhões de celulares em um só dia. Consequentemente, compra-os e revende a um preço irrisório. O mesmo se dá com suas políticas publicitárias e de recursos humanos. E, para completar, por serem empresas privadas, contam com linhas de crédito federais.
Estes recursos são vetados às empresas públicas, como a Celular. Dessa forma, sua capacidade competitiva é extraordinariamente maior que a nossa. Além disso, esta empresa tem permissão para atuar em todo Paraná e Santa Catarina e buscar seus 13 milhões de habitantes. Enquanto isso, a nossa não pode sair de uma área de 470 mil habitantes. Não por acaso, em apenas dois anos, esta multinacional abocanhou 35% dos celulares de Londrina.
Moral da história: sem concorrência, nossa empresa cresceu. Bastou uma discreta escaramuça de mercado e quase metade de sua carteira de assinantes bandeou-se para o lado de lá.
Ora, diriam alguns, a Sercomtel Celular pode obter parceiros e, fortalecida, competir em igualdade de condições. Infelizmente, não é verdade. Seu capital está aberto (eu mesmo o abri, há cinco anos). Onde estão os parceiros? Quem quer associar-se, de forma minoritária, a uma empresa pública, que a cada quatro anos pode modificar suas diretrizes ao sabor da conjuntura política? Que empresa investiria US$ 100 milhões (ou quanto puder valer) em um negócio que não pudesse ter o controle?
Impedida de obter clientes em outras cidades, tendo que disputar aqui com multinacionais poderosas, e sem parceiros que incrementem seu capital: esta é a sinuca de bico (sic) em que a política de telecomunicações meteu a Sercomtel Celular. O que fazer? O prefeito Nedson, de forma lúcida, abriu o jogo, sem meio-termo: tem que vender a Sercomtel Celular.
Vender para que não perca seu valor. Vender para reinvestir na telefonia fixa porque, esta sim, está autorizada a expandir-se para outras cidades. Vender para que se façam as obras e serviços que a cidade carece. O problema é outro. O prefeito é outro. O momento é outro.
E Nedson sempre foi exemplo de integridade. Não há, em sua vida pública, nada que o desmereça ou que o coloque em suspeição. Mais que isso: ao elegê-lo, a cidade lhe confiou cerca de R$ 1 bilhão em recursos orçamentários. A Sercomtel Celular não vale 20% disso. Com certeza, ninguém mudou de opinião em tão pouco tempo. Até porque o comportamento zeloso do prefeito, para com o Erário, não tem deixado dúvidas quanto às suas intenções.
Portanto, respeitadas as leis, as justificativas técnicas e um plano público de investimentos, estou certo que os londrinenses, com a razão e a emoção que sempre marcaram sua vida e sua história, decidirão pela venda da Sercomtel Celular. Decidirão pelo sim.
- LUIZ EDUARDO CHEIDA é ex-prefeito de Londrina





