A principal e atual concorrente da Sercomtel é a Telefonica, na Banda B, que tem o controle da Global Telecom. Juntas, elas possuem no Brasil mais de 5 milhões de assinantes, sendo que no mundo elas ultrapassam a casa dos 24 milhões. Na Banda A, a Brasil Telecom, que controla a TIM e que poderá ser concorrente da Sercomtel Celular já a partir de janeiro de 2002, tem em sua carteira outros 10 milhões de assinantes entre telefonia fixa e móvel.
Somente esses dados já seriam suficientes para uma análise mais pessimista sobre as possibilidades reais de sobrevivência, no mercado de telefonia, da Sercomtel Celular. A Sercomtel possui pouco mais de 50 mil assinantes em telefonia móvel – e aproximadamente 160 mil assinantes no total.
Mas este com certeza ainda não é o problema principal. A maior questão da Celular reside na incapacidade de enfrentar a corrida tecnológica. A empresa londrinense, por ser controlada pelo setor público (Copel e prefeitura) não dispõe de condições de alavancagem de crédito, nem no mercado financeiro local e muito menos no setor externo.
As restrições de endividamento colocadas para o setor público, portanto para o governo do Paraná que controla a Copel e para a prefeitura, retiram qualquer perspectiva de que os acionistas principais coloquem recursos para atualização tecnológica através de captação de crédito. Com recursos próprios, as chances são ainda menores.
Mas os principais concorrentes da Sercomtel Celular têm amplo acesso ao mercado financeiro internacional e com taxas de juros em torno de 4% ao ano. Para um mercado no qual a permanente atualização tecnológica cria enormes diferenciais, tanto para se manter competitivo quanto para fazer frente à concorrência, o acesso ao crédito se torna fator preponderante de desequilíbrio do processo de competição.
O acesso ao crédito também vale para um outro diferencial importante: a utilização intensiva do marketing na atração de novos clientes e na fidelização dos antigos. O volume de recursos à disposição desta variável, o marketing, chega a ser mais importante do que todos os investimentos na telefonia em si.
Portanto, em um mercado onde avanço tecnológico e marketing dependem diretamente de recursos à disposição, para expansão dos serviços e na concorrência direta, o não acesso ao crédito é a pedra fundamental. No mercado produtivo de hoje, quase nenhum grande grupo trabalha com capital próprio. Quase toda a expansão está lastreada em recursos de terceiros – empréstimos e financiamentos.
A venda da Celular se torna necessária, quer por esses fatos, quer pela própria configuração do atual mercado de telefonia controlado hoje por grupos com uma enorme capacidade de alavancagem de crédito. Isso faz aumentar o poder decisório pelos instrumentos financeiros e recursos tecnológicos.
De fato, a conjuntura política pode comprometer irremediavelmente o futuro da Sercomtel e não só a Sercomtel Celular. Caso o plebiscito do dia 19 de agosto diga não à venda estará criado um grande impasse em relação a decisões futuras da empresa. Como se trata de um consulta popular a pergunta é: por quanto tempo vale o resultado desta decisão? O poder municipal não poderá e não terá como realizar de ano em ano uma consulta para ver se vende ou não vende a Celular.
Apesar de pouco tempo, seria fundamental que a administração municipal conseguisse estabelecer um amplo processo de debates e esclarecimentos públicos, principalmente em torno de um plano de aplicação dos recursos obtidos da alienação dos ativos da empresa.
Por outro lado, é forçoso reconhecer que a decisão em torno da venda da Sercomtel Celular, admitida pelo governo municipal, poderia ter sido delineada desde o início da atual administração. Acredito ainda que o plebiscito poderia ser realizado um pouco mais à frente, quando a Câmara de Vereadores e a própria prefeitura fizessem uma ampla campanha de esclarecimento à população.
As eleições do ano que vem criam também dificuldades em torno da venda da Celular. Interesses que a administração não se viabilize com os recursos tornam-se o principal alvo dos adversários e da oposição. Mas na outra ponta, o próprio governo municipal não pode deixar dúvidas quanto à sua viabilização política e administrativa independente dos recursos da Celular.
Infelizmente, o histórico em torno dos recursos utilizados pela administração anterior de Londrina com a venda da Sercomtel Celular criou uma série de senões. O mais importante neste momento é que os setores organizados da cidade façam uma avaliação que leve em consideração, principalmente, a desvantagem competitiva em que a Sercomtel Celular está inserida e que tal patrimônio pode ser diluído aos poucos, caso o plebiscito não autorize a venda.
E mais: é preciso criar um fórum de acompanhamento dos gastos obtidos com a venda da Celular caso aprovada. Não pode haver dúvidas quanto à sua aplicação. Mesmo porque, a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) determina que tais recursos só poderão ser aplicados em obras. Obras que este fórum poderia estar definindo através de prioridades encaminhadas pelo conjunto da população.
- JOÃO REZENDE é mestre em economia, diretor da Fundação Paulista de Tecnologia e Educação e ex-secretário de Fazenda de Londrina (1994-1996)

mockup