Silvio Caldas era Brasil
Silvio Caldas era Brasil
Antoninho Marmo Trevisan
No outro lado da linha, o Dr. Rui Mesquita me contava que conhecera bem o caboclinho Silvio Caldas. Que ele não era exatamente um boêmio, mas um profissional de noite que cantava música popular erudita. E que, juntos, varavam as madrugadas paulistanas e terminavam a noitada no restaurante Parreirinha, da avenida Ipiranga, tomando uma suculenta sopa, daquelas que só a mãe da gente sabe fazer. Por muitas vezes, tinham ao lado o compositor Lupicínio Rodrigues, que sabia fazer da noite a sua grande inspiração.
Entusiasmado, Dr. Rui me contava sobre o amigo Dorival Caymmi, que na sua presença havia escrito caprichosamente os versos clássicos de Marina, morena Marina.... A boemia começava lá pelas duas horas da madrugada, dizia ele, quando terminava o trabalho na redação do jornal O Estado de S.Paulo, então na rua Major Quedinho. Quis provocá-lo, acerca da sua entrevista na rádio Eldorado na última quarta-feira, quando, lamentando a morte do querido amigo e seresteiro Silvio Caldas, deixou escapar algo como naquele tempo, havia um sentimento arraigado de brasilidade e não era como agora, quando a globalização invade costumes e transforma corações e mentes em meros agentes repetidores. Provoquei-o, perguntando se ele não via nisso um perigo para a nossa soberania. Respondeu-me com toda sua vivência de tantos golpes e ameaças ao Estado, que não acreditava nisso. Entendia, isso sim, que os Estados Unidos vivia a plenitude do capitalismo, com a força de quem prometia superávits fiscais de 200 bilhões de dólares e limitava em 18 o número máximo de alunos em sala de aula. No que rebati, afirmando que esta era a forma mais inteligente e eficaz de perpetuarem sua hegemonia. E, juntos, concluimos que, em que pese todos os avanços da tecnologia no campo do abastecimento e da resolução do problema da escassez de alimentos, o capitalismo até então não se mostrava capaz de avançar na questão da redistribuição de renda. Assunto que, me garantiu, já fazia parte de acalorados debates entre ele e o deputado Carlos Lacerda, pelas mesas de bar, nas madrugadas dos anos 50.
Encerramos nossa conversa e passei a escrever este artigo com a lembrança dos versos do poeta Orestes Barbosa, que Silvio Caldas musicara, transformando num clássico de todos os seresteiros e que o Dr. Rui havia declamado pelo telefone: A porta do barraco era sem trinco, mas a lua furando nosso zinco salpicava de estrelas nosso chão. E tu pisavas nos astros distraída, sem saber que a ventura desta vida é a cabrocha, o luar e o violão.
- Antoninho Marmo Trevisan, presidente da Trevisan Auditores e Consultores





