Silêncio brasileiro - Joel Samways Neto
Silêncio brasileiro
Joel Samways Neto
A imprensa internacional tem divulgado, nos últimos dias, os horrores que estão ocorrendo em Timor Leste. Milícias pró-Indonésia comandam o massacre de cidadãos - crianças, jovens, adultos e velhos - e o incêndio de suas casas. As imagens, feitas por cinegrafistas amadores, lembram muito a limpeza étnica praticada por sérvios contra kosovares. Pessoas fugindo, arrastando-se, aglomerando-se junto aos muros das embaixadas, tentando, desesperadamente, transpô-los, não se importando com os rasgos causados por arames farpados. Famílias dispersando-se, filhos perdidos, gente chorando, gente sendo obrigada a se deslocar à noite, em plena escuridão, com medo da repressão dos milicianos.
Assim como acontecia em Kosovo, ficamos a nos perguntar até onde vai o limite da espera de auxílio internacional. Quantas pessoas precisaram ser trucidadas em Kosovo, quantas precisaram fugir, a pé, por montanhas geladas, quantas precisaram ser humilhadas até que a comunidade internacional se sensibilizasse e enviasse as chamadas forças de pacificação? Foi o limite do hediondo, do ignominioso, do animalesco. Isso apesar do fato de o conflito comprometer situação geográfica considerada estratégica para a superpotência norte-americana. Por que demoraram tanto? Talvez, porque as vítimas eram apenas descendentes de albaneses; talvez, porque as potências internacionais, França, Alemanha, Inglaterra, Itália, demoraram a chegar a um acordo sobre como pagariam as despesas da ação militar. Talvez isso, talvez aquilo, talvez nada disso - o caso é que a humanidade teve de testemunhar muitas cenas de genocídio, inclusive de campos de concentração, antes de os pacificadores se manifestarem.
Infelizmente, tudo leva a crer que em Timor Leste não será diferente. Os telejornais ainda encharcarão muitos almoços e jantares com notícias sangrentas e imagens cruéis até que providências sejam tomadas.
Desde o plebiscito realizado há cerca de duas semanas, quando 78,5% da população de Timor Leste aprovou sua independência da Indonésia, começou o surto de violência. E de lá para cá, muito poucas linhas têm sido escritas, muito poucas palavras têm sido ditas, a respeito de alguns aspectos da crise timorense. Quase não se destaca o fato de que o Timor Leste é parte integrante do mundo latino, mais especificamente dos países de língua portuguesa. Será que a demora da ajuda internacional se deve a essa condição de o povo ser latino? Se for, então temos um motivo a mais para nos preocupar. Significa que se o Brasil, um dia, entrar em conflito civil armado, também teremos o mesmo tratamento dispensado pelas superpotências aos timorenses. Há quem diga que já morreram 20 mil pessoas, lá; e outras centenas de milhares já abandonaram seus lares e saíram do país. Logo, logo, quando as tais forças de paz se decidirem a intervir, restará apenas cinzas a serem varridas, mais nada.
Em Portugal, ao menos alguns milhares de portugueses se encorajaram a sair às ruas e expressar sua indignação. Quem dos 160 milhões de brasileiros faria o mesmo? O Brasil ficará restrito a enviar apenas um documento diplomático de repúdio à violência? Qual a razão do silêncio? Perdemos a capacidade de nos indignar diante da afronta aos direitos humanos, e de humanos que, inclusive, falam nosso próprio idioma?
Na verdade, todos os povos civilizados deveriam ter expressado mais ostensivamente, e mais rapidamente, sua indignação - se é que ela houve - diante das atrocidades cometidas em Kosovo, ou das atrocidades que estão sendo cometidas em países africanos e, agora, no Timor Leste. Uma indignação que expressasse a necessidade de urgência na reação aos atos de barbárie. Vai custar dinheiro? Decerto que vai. Mas quanto custa o senso ético e moral da humanidade? Qual a razão do silêncio? Será que a pior das nossas guerras haverá de ser a guerra contra o individualismo? Se for, teremos que reavivar a lembrança de que nenhum homem é uma ilha, e que, portanto, quando um africano, um kosovar, um timorense, um ser humano é vilipendiado, a humanidade inteira é vilipendiada junto.
Quem não quiser escrever cartas ao Itamaraty, ao Palácio da Alvorada, às embaixadas dos países ricos, quem não quiser telefonar, mandar telegrama, fax, e-mail, que então faça uma auto-avaliação para perceber se esse quadro lamentável não lhe provoca indignação. Se provocar, então pense nessa indignação. Porque pensar, causa. Causa uma nova mentalidade.
- JOEL SAMWAYS NETO é escritor e procurador do Estado em Curitiba





