Se a cassação de José Dirceu não vai melhorar a situação dos brasileiros, porque é uma medida essencialmente política, ao menos encerra um novela que vinha se arrastando e que intranquilizava, por ocupar espaço precioso de tempo e centralizar as atenções do cículo parlamentar. Outros mais poderão ser cassados, na continuidade são 12 ainda enfrentando processos de cassação e esses julgamentos precisam ocorrer, para servir de exemplo e de alerta e restabelecer um pouco da dignidade perdida pelo Congresso Nacional, depois de tanto desgaste pelas denúncias do mensalão. Não se pode afirmar que tudo ''acaba em pizza'' a expressão popular para dizer que denúncias de corrupção resultam sempre em impunidade porque escândalos foram trazidos à tona, deputados foram cassados e outros renunciaram, mesmo que o tenham feito estrategicamente. Foram mais de cem dias para julgar o caso Dirceu, um tempo longo demais, porque nesse período pouco de proveitoso se fez na Câmara Federal, envolta também com as CPIs e toda a epopéia da revelação de escândalos. A subida do PT ao poder, sonho acalentado pelo partido durante mais de vinte anos, viria resultar no afastamento de um dos seus mais notáveis integrantes: José Dirceu. Que carrega em seu currículo o de líder estudantil, guerrilheiro (verdade que sem nunca haver enfrentado um combate), refugiado político, participante ativo da fundação do Partido dos Trabalhadores, presidente da agremiação por sete anos, comandante das campanhas eleitorais de Lula, deputado, habilidoso articulador e finalmente o mais poderoso ministro do Governo. Sua queda representa o mais estrondoso impacto sofrido pelo PT, já tão desgastado pelos fatos recentes, que quase desestabilizaram o partido. Isto não significa que o histórico político deixe de exercer influência no Governo. Desobrigado de compromissos, e por continuar membro do PT, agora sobra-lhe tempo para articular o que deseja, e se é certo que continuará leal ao presidente (e íntimo companheiro) Lula, não o será com algumas figuras muito especiais da esfera governamental. A liberdade que ele ganha com a cassação lhe dá pernas para correr por fora, e com mais agilidade, ao menos até o final do mandato de Lula. Se como ministro-chefe da Casa Civil José Dirceu incomodava a muitos, ele ainda continuará gerando incômodos. A quem ainda o teme, talvez fosse preferível que continuasse deputado, portanto dentro do círculo do poder. Embora repudiado pelo povo, Dirceu poderá agora converter-se na eminência parda do Governo.

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