Show business no Planalto (Fernando José Dias da Silva)
Fernando José Dias da SilvaShow business
no Planalto
Em termos de qualidade a estação está muito ruim. Com o final do verão imaginava-se o surgimento de grandes espetáculos e bom afluxo de público. Nós já estamos quase no inverno e o que se vê são atuações pífias que não motivam o pessoal a sair de casa. É verdade que existe o burburinho, a agitação, mas nada de concreto aconteceu até agora para marcar a temporada. A atuação do Movimento dos Sem-Terra, o MST, prometia, causou polêmica. Mas agora as pesquisas estão indicando que a maioria desaprova o método revolucionário adotado pelo grupo nas suas apresentações.
A Jornada Nacional de Luta por Emprego e Direitos Sociais gerou grande expectativas antes da sua apresentação na Esplanada dos Ministério em Brasília. Foi um fracasso, atribuído pelos críticos à falta de uma direção que alinhavasse com certa coerência o objetivo da performance. O resultado foi um amontoado de sem-terra, sem-teto, sindicalistas, estudantes, drag queens, punks e baderneiros em movimentos desconexos, sem nenhuma unidade, fazendo evoluções em frente ao Congresso Nacional. Mesmo com a ajuda daqueles personagens usando capacetes, portando escudos e cacetetes, que insistiam em criar efeitos de fumaça por meio do gás lacrimogêneo, não conseguiram dar plasticidade ao evento.
Tinha-se também esperanças nos monólogos do ator principal. Antes tão sensível, inteligente, irônico, perspicaz, voltou pesado, amargo, com um certo rancor, falando em banda podre e vagabundagem. Muito naturalista para o gosto da platéia que não aprovou. E assim, aos trancos e barrancos, vai caminhando o show business.
Mas como a realidade é muito mais business do que show, trabalha-se agora com a possibilidade de haver segundo turno na eleição presidencial, o que provoca calafrios nos governistas. Mas talvez seja bobagem. Um marketeiro, muito conhecido que inclusive já trabalhou em várias campanhas do PT, afirma que novidade só se o Lula tirar a barba. O resto se anuncia como estava previsto. O favoritismo de Fernando Henrique, Ciro não conseguindo crescer e Lula, agora unido a Leonel Brizola, sem acrescentar os votos que precisa de classe média. A não ser que o inesperado faça uma surpresa.
E é verdade que a possibilidade do imponderável desarrumar todo esse jogo não está tão longínqua como há um ano. Essa história de sobe e desce nas bolsas de valores. Também a expectativa de ataques especulativos dos predadores financeiros internacionais, talvez seja o maior perigo existente até agora.
Isso porque o desgaste do governo com a seca é compensado, ou pelo menos neutralizado, com o desgaste da oposição pelos saques. Com a falta de medidas rápidas para debelar as consequências da seca, o governo de Fernando Henrique passa a imagem da omissão. Mas com os saques, o grupo de Lula não se livra da pecha de radical.
A não ser que no segundo turno, tão temido pelos tucanos, surja um outro candidato que não seja Lula. Ciro Gomes por exemplo, ou até Itamar Franco que, conforme as oscilações das pesquisas. pode ressurgir das cinzas. Mas aí também é muita especulação.
- FERNANDO JOSÉ DIAS DA SILVA é jornalista em São Paulo
Excepcionalmente não está sendo publicado hoje o artigo do deputado federal Delfim Netto, que escreve aos domingos





