Quanto tempo sem ouvir Shirley Bassey podemos passar? Me perguntei isso ouvindo a grande dama galesa do canto, após um tempo tão grande quanto perdido, que só me fez entender que há música e há o ar, mas a música não está no ar – está na memória de dias e noites guardados pela beleza da voz, de acordes e das pessoas que amamos...

Shirley me traz à lembrança esses dias e, lembrando do que amei um dia, amo de novo, enquanto a música sustenta as ausências que viver descortina.

Obrigado pela voz, Shirley – se pudesse lhe diria isso, a caminho de ouvi-la ainda uma outra vez.

A música em minha vida veio muito cedo e me remete a lembranças de um passado deslembrado, onde flashes entrecortados pela existência projetam o que foi naquilo que está sendo para, quem sabe, entendermos que o está por vir.

O passado conta minhas histórias e quem as escuta sou eu. Assim é que faço um trato com o destino, enquanto as músicas que sempre amei ouvir pulam da vitrola da lembrança projetando as sombras de desamores e afagos na parede da história.

Viver é lembrar e lembrando sigo vivendo. Lembro de festas juvenis, onde a música ritmava a trilha sonora de minha geração, abrindo alas para a aceitação das diferenças e acolhimento das cicatrizes da existência.

Cheguei em Londrina em julho de 1982, com 17 anos. Vim de ônibus (Silva Tur) de São José do Rio Preto e, no caminho o rádio contava sua parte na trilha sonora de minha vida. Lembro como hoje fosse: na Warta (o ônibus entrava por ali) ouvi Shirley Bassey cantar If you go away...

É uma das (muitas) belas canções que Madame Bassey cantou e, nela, há um refrão onde Shirley poetiza: ‘se você for embora garota, estará levando meu coração com você’.

Não é pouco levar o coração em uma partida. Isso conta uma história dentro do dia, ao tempo em que prepara a noite para o frio que levar o coração embora descortina.

O ônibus que levava ao amanhã anunciava o dia de hoje pela voz de Shirley Bassey e isso me fez amar Londrina incondicionalmente – afinal a voz da grande cantante galesa embalava o destino que, então, eu jovem desafiava.

Minha primeira motivação foi procurar um toca-discos usado. Acabei encontrando em um sebo que tinha nome de loja de som e ficava em algum lugar no Calçadão.

Vivi muitos anos em república estudantil, onde dividíamos despesas e guardávamos as diferenças para os dias de verdadeira dificuldade, quando a saudade de casa reclamasse lembranças dos dias de criança que o ontem projetava em nossa vida.

Shirley acompanhou meu crescimento embalando memória e (re)significando a maturidade de paixões que a juventude me concedeu.

Nessa medida a vida se anunciava mais sensível e o aparato circunstancial que sair da casa paterna projetava, tencionava as dificuldades em face da beleza da voz de Shirley Bassey.

O long play que a vitrola rodava não era barato. Assim a parcimônia reclamava uma procura cuidadosa e, das escolhas, sempre surgiam as grandes damas da música. Elis Regina, Barbara Streisand, Alberta Hunter e Shirley Bassey.

A música embalou muitas madrugadas de estudo (literatura baby, literatura) e posso asseverar que "O Mercador de Veneza" fica ainda melhor se lido ao som da grande cantante galesa.

Ousei questionar o próprio Cervantes, afinal Dulcineia deveria ser Shirley ou Elis. Fiz o mesmo com Dante – ainda que Beatriz seja um lindo nome...

Fato é que o limbo anuviando o caminho do purgatório não seria o que deveria ser sem uma trilha sonora. Imagino Elis cantando Belchior (Como nossos pais) enquanto o silêncio (que prepara a decida dos anjos) negava o transporte no barco derradeiro, na falta de moedas antes trocadas em uma Jukebox – para desapego do barqueiro...

Por momentos assim vale viver uma vida toda, projetando um futuro musical enquanto a chuva caindo em gotas anuncia a finitude do dia e das garotinhas que pegamos no colo quando nos apaixonamos por sua tia.

Anjos que voam baixo espatifam nossa saudade enquanto os dias vividos animam o que restou de lembranças.

Minha sobrinha morreu e não pude lhe dizer, ainda uma vez, que sempre a amarei. Vou esperar um ônibus qualquer me levar pelos caminhos do destino ao som de Shirley para, quem sabe, poder me despedir da saudade que ficou.

Eu sempre te amarei Taíse.

João dos Santos Gomes Filho, tio da Taíse...

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