A eleição do general Ariel Sharon, do Likud, declaradamente de extrema-direita, para o cargo de premiê israelense coloca o mundo mais atento sobre o complexo e espinhoso processo de paz entre árabes e israelenses, deixando os especialistas um tanto apreensivos quanto ao futuro daquela região, tendo em vista os antecedentes de violência que marcam a biografia pessoal do novo líder político de Israel.
O novo governo começa com um turbilhão de interrogações. A mais importante é a de saber se Sharon acirrará ou não os conflitos dos últimos meses, que já mataram mais pessoas do que a Intifada de 1987 a 1991. Muitos se indagam como será a relação de Sharon com Arafat, sabendo que a inflexibilidade tem sido a marca dessa relação, em contexto anteriores. Talvez, agora, em nome do puro pragmatismo, Sharon resolva dialogar, mas o panorama atual parece oferecer mais sombras do que luzes.
Em 52 anos de história, Israel ainda está longe de ser uma terra de promissão, onde a paz seja duradoura, isto porque houve um erro de base, nas constituição de seu Estado: e não criação do Estado palestino, assegurando os direitos que competem ao povo árabe daquela região.
O próprio papa João Paulo II, em visita à Terra Santa, no ano passado, reconheceu o direito dos palestinos terem seu Estado próprio. Como afirmaram Hassan El-Emleh e Nilson Dalledone, em artigo publicado na ‘‘Folha de S.Paulo’’ no dia 7, ‘‘os palestinos não pretendem criar o seu Estado no lugar do Estado de Israel, mas a seu lado, em harmonia. Israel pode dar uma lição ao mundo de diplomacia e grandeza de ação política, ao reconhecer o direito dos palestinos criarem seu Estado próprio, buscando erradicar de vez as causas que levam à violência entre estes dois povos semitas, todos filhos de Abraão’’.
Com Sharon, muitos não só acreditam que a paz será improvável (por ele ser militar de extrema-direita), como suspeitam de que a crise que o próprio Sharon deflagrou em 28 de setembro, ao visitar provocativamente a Esplanada das Mesquitas, em Jerusalém, poderá causar mais mortes e mais tensão, com um saldo de violência totalmente imprevisível e, talvez, sem precedentes.
A guinada para a extrema-direita e até uma certa indiferença do eleitorado israelense, onde 62% (4,5 milhões de eleitores) deixaram de votar pode significar um ato com graves consequências para a própria democracia de Israel.
A comunidade internacional acompanha, sem saber até onde se desdobrará a onda de violência no Oriente Médio e como será possível a confirmação de uma paz duradoura. No entanto, permanecem vivas as esperanças de que a paz um dia virá de Israel, povo da eleição de Deus, destinado a oferecer ao mundo uma elevada qualidade de vida e consciência acerca de valores verdadeiramente humanos.
Afinal, a promessa de um amanhã de harmonia e justiça está na própria semântica da Cidade Sagrada. Jerusalém significa literalmente ‘‘a cidade de onde virá a paz’’. Torçamos para Sharon – mesmo pragmaticamente – dê uma contribuição positiva e definitiva para a paz entre árabes e israelenses.
- VALMOR BOLAN é Doutor em Sociologia e dirigente de instituição de ensino superior em São Caetano do Sul
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