Uma pesquisa divulgada em dezembro pelo IBGE mostrou que 20,5% dos partos realizados pelo sistema público de sáude foram de mães adolescentes. São jovens com perfil muito parecido: raça negra ou parda, baixa escolaridade e baixo nível econômico. Em entrevista à FOLHA, o hebiatra Walter Marcondes Filho afirma que os jovens estão iniciando a vida sexual mais cedo, ignorando os riscos de uma gravidez indesejada. Ele defende uma mudança no sistema de educação sexual e critica a hipocrisia de determinados políticos e religiosos que combatem o uso de métodos contraceptivos.

A prática sexual está ficando cada vez mais precoce?
A média da primeira relação sexual nos jovens, tanto menina quanto menino, é 14 anos. Mas eu tenho muitas pacientes com 11, 12 anos que estão tendo relações com seus namorados e o preservativo nem sempre é usado. Não é por desconhecer. É que o jovem gosta de viver no risco. Ele conhece o risco quando tem um bom nível de escolaridade. Quando ele não tem, não possui o conhecimento teórico da coisa. Essa história do ''comigo não acontece'' é real. Por isso que está aumentando a gravidez na adolescência entre 10 e 14 anos.

Educação sexual nas escolas públicas seria uma alternativa?
Seria, se você modificasse o sistema. A educação sexual feita através de palestras não funciona. O ideal é fazer oficinas de sexualidade. Falar não atrai a atenção do jovem. Nas oficinas, você discute o corpo através de jogos, desenhos e com argila. Quando se dá a eles a argila para demonstrar a parte do corpo que eles têm mais sensações eróticas, os meninos fazem apenas pênis, um maior que o outro, enquanto as meninas fazem orelha, boca, pescoço, mama, umbigo, genital, perna. Elas sentem no corpo inteiro e eles não entendiam aquilo. Aí você consegue discutir sexualidade como um todo.

Muitos defendem que distribuir pílula do dia seguinte incentiva os jovens a praticarem sexo sem cuidados. Qual sua opinião?
A gente tem que deixar de ser hipócrita. Existem políticos e igreja envolvidos nisso. Eles alegam que é uma medicação abortiva, e não é. A contracepção de emergência deve ser orientada para todos jovens de vida sexual ativa. Temos um código de ética que nos permite chegar para uma jovem de 12, 14 anos e falar para ela sobre anticoncepcional, uso da camisinha. É obrigação do médico fazer isso.

E com relação à distribuição de preservativos?
Acho que o preservativo deve ser distribuído sem restrição. Não concordo que se faça nas escolas da forma como está sendo pensada, com uma máquina igual às de refrigerante. Você põe uma moeda e tira uma camisinha. Existe um constrangimento, tem muita gente olhando o jovem. E quem vai orientar sobre o uso da camisinha? Local de distribuir preservativo é no Programa Saúde da Família, Unidades Básicas de Saúde, ali é possível dar orientação.

Gravidez na adolescência deve ser tratado como problema social?
Existe um grande número de mães adolescentes que são boas mães, e muitas fazem isso como escolha porque querem sair de casa. Por outro lado, é um problema social porque envolve uma série de fatores: são jovens de classe mais baixa, que tem famílias desestruturadas, pessoas que não tem muita opção na vida. Em outros casos, a menina deixa de estudar, pode se deprimir, ser discriminada pelos amigos e se sentir rejeitada pela sociedade. Muitas provocam aborto clandestino, colocando em risco a própria vida, com medo do pai e da mãe. É um problema que nós temos que encarar de frente sem moralismo, com realidade. Os políticos têm que entender que este é um problema de saúde pública. Perdemos muitos jovens, muitos bebês por conta disso. Se a gente deixar de ser moralista, começar a orientar corretamente os jovens, é possível mudar este panorama.

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