Em nossos dias de reforma da previdência e reavaliação do estado brasileiro, cresce um questionamento sobre para que serve o serviço público e seu status diferenciado das demais carreiras. Os privilégios acumulados durante décadas pela carreira pública são questionados até o ponto de nos perguntarmos sobre a necessidade de um serviço público diferenciado dos empreendimentos privados.
A necessidade de um serviço público para gerir assuntos específicos do país deve ser reafirmada frente a um esvaziamento total do estado brasileiro. Por outro lado, a presença do setor privado em sua esfera específica deve ser garantido e incentivado naqueles espaços em que a presença do estado não é essencial. O conflito entre a esfera pública e a esfera privada deve ser reavaliada para repensar o próprio país
e suas estratégias de crescimento.
Um conflito entre o público e o privado longe de interessar o país serve para tornar as coisas mais difíceis e acirrar discussões intermináveis que não levam a lugar nenhum. A discussão sobre qual o papel do estado e que áreas devem ser livres para a exploração de empreendedores privados surge com o moderno capitalismo e seus limites. A exploração do mercado pelos empreendedores do capitalismo inicial na Europa esbarra numa esfera estatal que reserva certas esferas para exploração exclusiva do estado dominado pela nobreza feudal e pelo clero medievo. No início, esta influência estatal pode ser entendida como um protecionismo que buscava manter privilégios para uma nobreza decadente que se apropriava das benesses estatais para continuar exercendo o poder.
Num segundo momento, com a afirmação do capitalismo europeu e suas conquistas de mercados em todo o mundo, a esfera de influência do estado se vê reduzida e sufocada com a mercantilização de todas as áreas. É neste momento que surge a preocupação com certos setores em que o estado deve interferir no mercado para garantir que certos serviços essenciais sejam garantidos para todos. A educação, a saúde, a justiça e o policiamento dos cidadãos passam a serem vistos como serviços que devem ser garantidos pelo estado. Esta reserva de mercado serviria para manter estes serviços acessíveis para todos independentemente de sua condição econômica e social. Mas na realidade, ocorreu o inverso: o serviço do estado fica em poucas mãos de detentores do poder e apadrinhados que se aproveitam das benesses estatais para atender seus interesses corporativos. Ou seja, os ricos apadrinhados pela burguesia ficavam acima da lei enquanto o povo deveria sofrer o rigor desta e se submeter passivamente tendo
o estado como encobridor destas falcatruas.
O serviço público através de concursos surge para tentar corrigir estas distorções da esfera estatal. A necessidade do setor público independente de interesses particulares decorre do dever de atender a população em suas necessidades primordiais sem nenhum interesse privado preponderando. O estado tem o dever de garantir os direitos fundamentais do cidadão e para tanto o setor público aparece como o meio ideal para cumprir esta tarefa. Com a instituição do concurso como único meio de ingresso no serviço estatal busca-se garantir uma lisura no processo de admissão, que não beneficie as elites que ocuparam por séculos o espaço público; e garantir o ingresso de trabalhadores interessados em contribuir para o aperfeiçoamento dos serviços prestados e comprometidos com a tarefa de atender a todos sem privilégios. Desta maneira, a relevância do setor público é reafirmada no intuito de atender a necessidades universais como saúde, educação e segurança de forma
universal e justa.
A esfera privada por outro lado, atua no sentido de incentivar o crescimento econômico do país contribuindo para que o poder aquisitivo das pessoas cresça. Desta maneira o desenvolvimento capitalista deve ser incentivado e garantido nas áreas em que não é necessária uma igualdade de direitos, mas sim uma igualdade de oportunidades. O capital joga com a riqueza no sentido de não deixá-la estática, mas sim em uma mobilidade em que ela, idealmente, cresça. É por isso que ele é importante, pois já que a população aumenta, a quantidade de riqueza em circulação deve aumentar sob o risco de uma pobreza cada vez maior e para tanto, o desenvolvimento capitalista é a única
alternativa prática.
É importante frisar que uma atitude ética deve perpassar tanto a relação no mercado privado quanto no serviço público. Se no trato com a coisa pública universal a perseverança da ética é clara no sentido de garantir a todos o acesso aos serviços prestados, no mercado privado ela não é menos essencial em vista da necessidade de crescimento do país de forma sustentável que não se confunda com especulações oportunistas que beneficiam a poucos.

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