O grupo político que tomou o poder em 2003 deu uma nova dimensão para o termo gasto público. Nunca antes na história deste País, um governo central realizou tantas despesas.
Em 2014, o Brasil interrompeu uma série de mais de uma década de superavit (arrecadava mais do que o volume de gasto corrente) e entrou na era o deficit primário (quando as despesas são maiores que a arrecadação).
A sociedade brasileira começa agora a entender as consequências da falta de zelo com o erário, o inchaço administrativo, traduzido pelo número de ministérios, que chegou a ser recorde, com 39 pastas.
Por bons anos, a máquina arrecadadora foi saciada pela conjuntura favorável. As cifras eram melhores a cada mês e o equilíbrio se dava mais pelo vigor econômico e nunca pela característica desejável do gestor público, a austeridade.
O símbolo de que a fatura por, digamos, tanta imperícia no manejo dos recursos públicos, enfim chegou aos trabalhadores é o pacote de alterações previstas nas medidas provisórias 664 e 665, que impõe regras mais rígidas ao abono salarial, ao seguro desemprego, seguro defeso, pensões por morte e auxílio-doença.
As centrais sindicais, antes tão complacentes com a política fiscal irresponsável, saíram às ruas, o que já causa importante incômodo no início do segundo mandato da presidente Dilma Rousseff. Mas a ameaça aos trabalhadores não se encerra apenas no arrocho. Ela se estende ao que virá no ciclo posterior.
Em reportagem publicada hoje por esta FOLHA, o empresariado mostra apreensão com as possíveis novas regras do auxílio-doença, por exemplo, antes bancado pelo governo a partir 16º dia de afastamento, o que agora deverá ocorrer apenas a partir do 31º dia.
Edson Campagnolo, presidente da Federação das Indústrias do Paraná (Fiep), prevê na reportagem que os custos de produção aumentarão com a medida e que estes serão repassados aos consumidores. O mais perverso, lembra ele, é que os microempreendedores seriam os mais afetados.
Talvez jamais tenha ficado exposto de forma tão cristalina o papel do governo federal na dinâmica macroeconômica. Ficou mais simples percebermos que uma gestão austera e financeiramente equilibrada é o melhor caminho para a desoneração do setor produtivo, o atalho para a saúde econômica, incluindo a geração de novos postos de trabalho. Infelizmente, estamos angustiados ao assistir a lição inversa.

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