‘A alma nunca pensa sem uma imagem’’, disse o filósofo Aristóteles 350 anos antes de Cristo. Já David Wark Griffith, cineasta tido por muitos especialistas como o pai da narrativa cinematográfica, escreveu (em 1921) que ‘‘uma lição aprendida por meio do cinema é mais difícil de esquecer que qualquer outra.’’
  Agora, em pleno século XXI, uma nova leva de pensadores defende a inserção de estudos sobre a narrativa por meio de imagens em escolas de ensino fundamental e médio. O professor de Literatura e Cinema da Universidade Federal Fluminense (UFF - Niterói) Adalberto Müller vai além: defende que é o professor de língua portuguesa que deve abarcar esta responsabilidade no Brasil. ‘‘Já existem disciplinas sobre cinema nas escolas públicas da Europa. Em Portugal, tem até pós-graduação em Literatura e Cinema’’, disse Müller, durante recente palestra para alunos da Universidade Estadual de Londrina (UEL).
  Como surgiu o interesse em debater cinema no campo da literatura?
  Desde muito cedo aprendi a gostar de livros e filmes. Ocorreu-me pensar que muitas das coisas que eu admirava nos livros - as estratégias narrativas de um Machado de Assis, as imagens da poesia do cotidiano em [Manuel] Bandeira ou em [Carlos] Drummond de Andrade - também aconteciam em filmes de um [Jean Luc] Godard, de um [Michelangelo] Antonioni ou de um Woody Allen. Este último, aliás, um diretor bem machadiano. Então fui buscar entender o que era o cinema, como ele se construía, para fazer uma aproximação justa com a literatura. Comecei a ‘‘ler’’ os filmes com a mesma intensidade e paixão com que lia grandes romances ou livros de poemas. Claro, o VHS ajudou, e o DVD mais ainda, pois permitem o ‘‘ir e vir’’ da leitura. Tenho tentado ensinar isso aos meus alunos.
  O senhor comentou que, nos países europeus, os debates e as pesquisas sobre o cinema foram iniciados pelos estudiosos de Letras. Por que não ocorreu isso no Brasil?
  Os ‘‘film studies’’ começam e se fortalecem nos países de língua inglesa, sobretudo nos EUA, dentro dos departamentos de Inglês, ou seja, de Letras, e de Literatura Comparada. Em muitos países, quando não estão nas Letras, os estudos de cinema estão vinculados às artes. Disso vem, aliás, a força de muitas cinematografias, como a portuguesa e a francesa, onde os diretores têm formação literária e artística muito boa. Entre nós, os estudos de cinema e a formação em cinema se concentram nos cursos de Comunicação Social. Penso particularmente que os estudos de cinema e a formação em cinema deveriam estar mais vinculados à literatura e às artes.
  Em uma palestra recente na UEL, o senhor também comentou que setores acadêmicos adiantaram diversos debates que o curso de Letras ainda não fez, como descobrir maneiras de usar as mídias ou artes na universidade e, por extensão, na educação em geral...
  Por estar vinculado prioritariamente a uma cultura do livro, das livrarias, das bibliotecas, dos sebos, o literato tende a ser avesso às mídias, ao mundo do espetáculo, à cultura pop - que constituem o nosso mundo de forma inequívoca. O literato vive no século XIX. Não entendeu a revolução no mundo das comunicações e das mídias que começaram com a fotografia, o cinema, o gramofone, o rádio e a tevê. No século XX, o que era exclusivo da literatura migrou para essas mídias. No entanto, como educadores, temos que confrontar o legado cultural da literatura e das artes com a realidade das mídias. Na área de educação há avanços, pois que se trata de pensar de que modo a Escola fundada sobre o tripé livro, giz e quadro-negro, está se transformando na escola do computador e do data show. Ou seja: de uma Escola que se funda sobre a ‘‘escrita’’ passamos a uma Escola que se abre para a ‘‘imagem’’ sem esquecer do ‘‘som’’ e da ‘‘voz’’. É uma questão crucial.
  O professor de língua portuguesa não tem medo de ser atropelado pelos estudantes ‘‘antenados no mundo digital’’ quando aborda temas modernos de comunicação?
  Esse professor deveria ser, idealmente, alguém que esteja mais ‘‘antenado’’ do que os alunos. Mas ele não é ensinado a isso. Ao professor de português, enfia-se na cabeça dele uma cultura do século XVIII que tenta, à força, incutir aos estudantes. Idealmente, esse professor deveria saber ‘‘ler’’ com a mesma intensidade e com a mesma postura crítica a poesia de Tomás Antônio Gonzaga e os raps dos Racionais.
  Pra finalizar, uma pergunta ao Adalberto leitor e cinéfilo: a produção brasileira vai bem nestes dois setores? Temos qualidade nos livros e filmes nacionais?
  Sim. Tanto aumentou o número de leitores quanto o número de espectadores e de produções no cinema nacional. O novo desafio será levar as bibliotecas e salas de cinema - pode incluir aí a música, o teatro etc - ao interior do Brasil e às periferias. Entidades como o Sesc já vêm fazendo isso. Há um projeto bonito que leva bibliotecas a comunidades de periferia. Há uma expansão de cineclubes comunitários. Mas acredito que é na Escola, ainda, que se formam o gosto e a sensibilidade dos leitores, dos ouvintes e dos espectadores. Por enquanto, a Escola só está preocupada em cultivar o gosto dos leitores pelos livros, pela literatura. Quando a Escola for capaz de cultivar o gosto pela boa música, pelo bom cinema, tanto quanto o gosto pelos bons livros, muita coisa há de mudar nesse país.

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