Setembro em Nova York - José Antonio Pedriali
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terça-feira, 01 de setembro de 1998
José Antonio Pedriali 
Agosto se foi, e não deixará saudades, apenas a sensação de que nos conduziu para a antecâmara do caos, com a queda em dominó das Bolsas de Valores de todo o mundo, culminando, em seu derradeiro dia, com o terceiro maior crash de Wall Street. Agosto nos deixará apenas a sensação da proximidade do abismo ou terá sido o movimento decisivo do processo iniciado em outubro do ano passado, na Ásia, que mostrou a corrosão crônica dos fundamentos da economia mundial? Agosto se foi e setembro começa sob o signo da desconfiança, do temor - por que não, do pavor? - de que a prosperidade econômica mundial experimentada nos primeiros oito anos desta década esteja se esgotando.
Os países asiáticos e a Rússia já estão sentindo na pele as dores da recessão. O gigante Japão revê suas metas de crescimento e se prepara para um longo período de estagnação. Tailândia, Malásia, Coréia do Sul lutam para manter-se de pé. A China tenta manter o furacão fora de suas fronteiras. A Indonésia, agora sob um novo regime, depois de mais de três décadas de domínio de Suharto, desespera-se diante da fome - e nada mais eficiente do que a fome para enlouquecer um povo.
E a Rússia, a mais nova (até quando?) vítima do capital especulativo, da inoperância administrativa, da falência da autoridade e outros males, está atônita, imersa no caos. E faz lembrar, embora os líderes, os fatos e o cenário sejam outros, os hirstóricos dias que antecederam a deposição do czar Nicolau II, a ascensão de Kerensky, as turbas de bolcheviques, os discursos inflamados de Lênin... a Revolução!
A crise asiática, provocada pelo que os economistas ludicamente batizaram de estouro da bolha de prosperidade, nos atingiu há tempo. A Comissão Econômica para a América Latina (Cepal), órgão das Nações Unidas e com sede em Santiago, Chile, revelou ontem o quanto deixaremos de ganhar: nosso continente crescerá este ano no máximo 3%, quando, no ano passado, crescemos 5,3%. Chile, por ter baseado sua economia na exportação para a Ásia, e o México, por motivos estruturais, são os dois países mais afetados por enquanto. A Argentina já perdeu mais de US$ 20 bilhões de suas reservas cambiais. E nós, só em agosto - o agosto negro! - vimos nossas reservas baixarem mais de US$ 11 bilhões.
Seremos a próxima vítima? Por que não? Por que sim? Nossas reservas baixaram, mas ainda dispomos de aproximadamente US$ 60 bilhões - um bom indicador para os investidores (estrangeiros); nossa política de juros é altamente atraente - e isto é excelente para os investidores (estrangeiros). E péssima para as finanças públicas, pois só o pagamento de juros das dívidas interna e externa no ano que vem irá consumir mais de US$ 50 bilhões.
Temos, sim, um presidente que soube controlar a inflação, mantendo-a em níveis de Primeiro Mundo, e este presidente tem tudo para ser reeleito no mês que vem - e isto é bom para os investidores (estrangeiros e nacionais). Temos outros indicadores econômicos favoráveis, mas nossa economia equilibra-se perigosamente sobre um déficit público gigantesco - e esta, justamente esta, foi a arapuca em que se meteram os ex-tigres asiáticos...
Não importa quem será a próxima vítima. O crash de 31 de agosto de Wall Street é o indicador de que todo o mundo pode estar sendo empurrado para a recessão, e cada país, com suas peculiaridades, sofrerá mais ou menos, caso se confirme a tendência de queda das Bolsas de Valores. Wall Strett fechou em alta de 3,8% ontem, trazendo alívio para o mercado mundial. Até quando irá se manter em expansão este que é o maior mercado do mundo globalizado, ninguém arrisca dizer. A economia norte-americana vai de vento em popa, mas depois de 31 de agosto a Bolsa de Nova York passará a ser olhada com desconfiança por todos, principalmente pela metade da população adulta daquele país que aplica suas economias em ações.
Setembro, pelo menos em Nova York, começou promissor. Para japoneses, coreanos, indonésios, tailandeses... e russos será mais um mês de angústia e apreensão. Nós, que estamos às vésperas de eleições, não devemos perder o sono. Mas também não podemos dormir em pé.
- JOSÉ ANTONIO PEDRIALI é jornalista da Folha


