As últimas notícias dão conta do desejo de vender o restante da Sercomtel, a companhia telefônica de Londrina, com a finalidade de utilizar o dinheiro para saneamento imediato das contas da prefeitura e fuga da concorrência no setor de telefonia que se avista acirrada para os próximos anos. Outros levantam bandeiras favoráveis a comprar novamente a parte que foi vendida e ainda distribuir ações entre os usuários das linhas telefônicas. É preciso que nosso povo fique atento a mais esse conjunto de armadilhas contra o patrimônio público conseguido graças a luta de nossos pais e avós.
A ‘‘engenharia financeira’’, da forma que passamos a ouvir como panacéia para a questão da Sercomtel, nada mais significa do que trocar o nosso sócio atual, que entrou na sociedade agregando uma rede de fibras óticas em todo o Paraná fundamentais ao processo de expansão necessário e inevitável para a sobrevivência da empresa a partir de 2003, quando ocorrerá a abertura total da telefonia, por um ‘‘parceiro estratégico’’ que nos emprestaria o dinheiro para a recompra das ações que seriam dadas a ele em garantia do pagamento. Quem mais tem interesse nesse negócio senão as companhias estrangeiras de telecomunicações, como a Telefonica, Telemar e outras, ávidas por lucro fácil e, como mostram os dados da Anatel, nada interessadas em contemplar o consumidor do serviço com qualidade, tarifas menores e garantia de empregos.
O pagamento de tal empréstimo dependerá da injeção de capitais de investimento que nem a empresa e tampouco a cidade estão em condições de fazer, o que exporá Londrina ao enorme risco de ter que entregar toda a empresa aos seus credores em consequência da inadimplência.
Supondo-se ainda que tal investimento pudesse ser feito, é preciso considerar que nos próximos dois anos estaremos em processo de sucessão presidencial que interferirá sobremaneira na condução econômica da Nação aumentando os riscos envolvidos em uma operação financeira dessa natureza, mesmo porque o virtual investidor certamente usará seu poderio político para interferir no macroambiente do negócio em momentos que julgar necessário.
Será a concorrência que se aproxima tão ameaçadora a ponto de entregarmos a empresa como que numa desabalada fuga da responsabilidade de vender mais, de atender convenientemente o cliente, de construir uma estrutura de custos que viabilize o investimento?
Pior do que a engenharia financeira divulgada é a idéia de iludir aqueles usuários que participaram dos planos de expansão numa época de demanda reprimida, com a distribuição de ações, numa clara jogada eleitoral de cooptação dos que só têm a visão do lucro imediato, visto que não se pode em um governo democrático privilegiar alguns em detrimento de todos os outros. A Sercomtel pertence ao povo de Londrina como um todo. Fica ainda a pergunta de como receber as ações relativas àquela linha que porventura tenha sido vendida anos atrás? Pagarão a quem?
Vamos a alguns números tirados do balanço da Sercomtel que se encontra disponível no site da empresa para quem tiver interesse de verificar, e que ensejam reflexões importantes: A nossa empresa de telefonia possui 31 milhões de ações aproximadamente, sendo que dessas 45% pertencem à Copel e as restantes 17 milhões estão em poder da Prefeitura Municipal de Londrina e por consequência pertencem aos quase 500 mil habitantes da cidade. Dessa forma, dividindo-se a quantidade de ações da prefeitura pelo número de habitantes encontramos 34 ações por habitante. A divisão do capital social da empresa pelo total de ações nos dará o valor aproximado de R$ 8 por ação, logo, cada habitante de Londrina possui R$ 272 do patrimônio da empresa, não mais do que isso e muito menos do que nos acenam diariamente no horário eleitoral do rádio e televisão. Some-se a isso o fato de que, se as ações forem pulverizadas, aí sim a Copel se tornará a legítima dona da empresa por estar de posse da maioria do capital e nossa Sercomtel deixará de pertencer a Londrina.
Por essas e outras razões, deve-se priorizar a engenharia do trabalho em detrimento de qualquer mecanismo financeiro de alto risco, pois essa primeira consiste em administrar corretamente o potencial dos brilhantes recursos humanos que estão à disposição em nossa Sercomtel, fazendo com que a empresa produza resultados satisfatórios tanto ao nosso município quanto ao parceiro estratégico atual. Caso contrário, rifemos a Sercomtel.
- RICARDO PROCHET é administrador de empresas e consultor em Londrina
e-mail:[email protected]

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