Serão fantasmas? Tomara que sim
Podemos estar vendo sacis e fantasmas em plena luz do dia, porém, após este teatro armado em torno da real carência de energia disponível para os brasileiros, muita conjetura pode ser feita. Se as graves consequências de um colapso do abastecimento de energia elétrica na qualidade de vida da população e na própria sa© úde econômica do País já eram previstas pelos técnicos e sabidas pelo governo federal há muito tempo, por que só agora todo este alarde?
Será mesmo que realmente não existia pronto um ou mesmo mais de um plano detalhado de contingenciamento do consumo energético? É difícil acreditar em tamanha imprevidência ou, o que é muito pior, incomensurável irresponsabilidade, por parte de quem tem a delegação do povo para cuidar de seu bem-estar.
Neste quadro surrealista se pode aventar a hipótese de que tudo é orquestrado para alguém levar vantagem, mais uma vez às expensas do paciente povo brasileiro. Por essas e por outras diz-se que: Foi o governo quem gerou o fantasma do apagão por não cumprir com a sua obrigação, obriga a ação do cidadão que saberá agir agora e na hora da votação.
Não seria ilógico pensar que o espectro da falta de energia está sendo potencializado, dentre outros fins obscuros para voltar à carga com o plano de instalar termelétricas a carvão importado pelo Litoral brasileiro ou ainda, adquirir no mercado internacional usinas nucleares com tecnologia imprópria.
Até que seria uma ação maquiavelicamente inteligente para atenuar as críticas de ambientalistas a planos deste tipo. Não se quer com isto afirmar que é impossível construir uma termelétrica a carvão ou usinas nucleares ambientalmente corretas. Provavelmente é possível, porém a um custo elevado e após uma avaliação extremamente cuidadosa dos riscos e das implicações ambientais.
A necessidade de um ajuste na matriz energética brasileira, calcada na geração hidrelétrica tem sido reconhecida e tratada por especialistas na área há décadas. O enfoque sobre as consequências deste ajuste sobre o meio ambiente, todavia tem sido insuficiente.
É urgente que se promova, não apenas um Estudo de Impacto Ambiental e Relatório de Impacto Ambiental Individual para cada empreendimento, porém um EIA/Rima Estratégico sobre os impactos ambientais da mudança da matriz energética. Se os efeitos deletérios mais perceptíveis de um determinado empreendimento eletro-gerador são marcantes apenas em sua área de influência direta, suas reais interações abrangem regiões bem maiores quando não o mundo todo. Esta abrangência global é evidenciada quando se analisa o efeito cumulativo de todos os empreendimentos congêneres. Para se ter acesso ao mel, pode ser aceitável uma ou outra picada de abelha, porém se todo o enxame atacar é morte quase certa.
Neste quadro de perplexidade a massa pensante deste País deve tomar sérias decisões que ultrapassem as fronteiras do interesse próprio direto, cada um exercendo suas competências. Dentro de seu papel, as universidades, por exemplo, devem definitivamente eleger dentre suas prioridades a pesquisa de fontes alternativas de energia, produzida sem danos ao meio ambiente e justamente enfocando a melhoria dele, pois do meio ambiente depende a sobrevivência do ser humano. Não dá mais para se alienar do problema como se este viesse a ser crucial apenas daqui a centenas de anos. A hora é agora.
A solução definitiva não será certamente a perpetuação de casos bizarros como uma empresa produtora de alumínio ou outro metal ter de cessar a produção precípua para vender a sua energia elétrica para ser distribuída na rede geral.
O fato positivo de toda esta movimentação é a conscientização da população sobre o caráter finito da energia disponível. Também fundamental é a ciência de todos sobre a existência de formas alternativas de geração e racionalização do uso da energia. Sobre o perigo e o risco de se acreditar que o governo sabe exatamente o que está fazendo neste caso, que cada um tire suas próprias conclusões, por mais fantasmagóricas que possam ser.
- ANDRÉ VIRMOND LIMA BITTENCOURT é engenheiro químico, geólogo e dirigente de instituição de ensino superior em Curitiba





