Arlete Salvador
O novo milênio pode não ter começado oficialmente, mas na prática parece que entramos numa nova era com a virada para o ano 2000. Nas primeiras semanas de janeiro, uma série de novidades colocou a Internet no posto de vedete do futuro. No cenário internacional, a American On Line (AOL), um dos maiores provedores de acesso à rede do mundo, associou-se à Time Warner, dona da revista ‘‘Time’’ e da TV CNN. No plano interno, surgiram as duas primeiras empresas a oferecer acesso gratuito à Internet.
A partir desses dois acontecimentos, imagina-se, a vida nunca mais será a mesma na face da Terra. Anunciam-se transformações tão determinantes para a humanidade quanto o momento em que nossos ancestrais animais passaram a se equilibrar em duas patas, criando uma nova espécie de seres vivos, embora com eternas dores nas costas. Daqui para a frente, os sem-Internet (empresas e pessoas físicas) parecem destinados a ser como os outros bichos que insistiram em caminhar nas quatro patas – irracionais e improdutivos.
As previsões sobre o futuro das relações humanas e econômicas com a popularização e abrangência do uso da Internet são, ao mesmo tempo, maravilhosas e assustadoras. Aliás, como tudo na vida. A milenar sabedoria chinesa, por exemplo, expressa há muito tempo a dualidade de todas as coisas na definição das energias ying e yang. Nenhuma delas é má por excelência, mas ambas só funcionam bem em perfeita harmonia.
Com a Internet, dizem os entusiastas, haverá a democratização do acesso às informações e, portanto, do conhecimento. As barreiras culturais poderão ser rompidas (desde que todo mundo fale inglês, claro) assim como as diferenças nos níveis de educação entre os países. Os ganhos maiores, entretanto, viriam do uso da Internet para fins comerciais, menos nobres, é verdade, mas ninguém é de ferro. Fortunas e gênios de 20 anos, mesmo que meramente virtuais, já estão sendo erguidos da noite para o dia.
O componente assustador na Internet, aparentemente tão revolucionária e abrangente, é justamente saber o que acontecerá aos excluídos da rede. Vi uma placa inusitada numa casinha nas vizinhanças da magnífica Avenida Paulista, em São Paulo. Estava lá: ‘‘Ensina-se caligrafia para deixar a letra mais bonita’’. Que fim terão os calígrafos na era da Internet? Mais do que o futuro do calígrafo em si, é assustador pensar no fim do romantismo da letra bonita, arredondada e clara, como costumavam ter as professoras do antigo primário.
Quando nossos ancestrais se colocaram de pé, não sabiam o que o futuro lhes reservava. O mesmo se dá com a Internet. Até agora, as previsões sobre o seu impacto na vida contemporânea são apenas isto – previsões. Tanto é assim que as ações de companhias dedicadas à rede mundial subiram às alturas mais pela perspectiva do que serão no futuro e menos pelo que são hoje. Quem as comprou apostou na esperança, mas sempre com a opção de venda. De qualquer forma, que dá medo, dá.

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