Será a vez da agropecuária? - Marcos Elias Traad da Silva
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 21 de setembro de 1998
Marcos Elias Traad da Silva 
Os últimos acontecimentos econômicos, verificados no mundo, têm estremecido a todas a nações e causado pânico até nas economias mais estáveis. Mais uma vez, estamos presenciando a voracidade dos mercados especulativos e constatando que, os países do bloco emergente, são os mais prejudicados, sofrendo as consequências político-econômicas colonialistas. Sim, pois a cada sinal de desequilíbrio, promovendo uma situação insustentável, os nossos credores, abalados com a possibilidade de terem as suas dívidas colocadas em moratória, são obrigados a nos oferecer socorro. Como não podemos recusar, em virtude da situação caótica nas nossas contas, entregamo-nos de corpo e alma aos critérios estabelecidos por aqueles que dominam o capital produtivo e manobram o fluxo especulativo.
Como não sou economista, mas como tal, e de forma compulsiva, procuro administrar as contas domésticas, consigo vislumbrar a situação de inquietude que se apodera de quem não obtém equilíbrio entre receitas e despesas, o que de há muito tem sido de praxe à grande parte dos brasileiros.
Enfim, a crise continua por aí, e temos que procurar administrá-la, preparados para pagar a conta mais uma vez, tendo em vista que a máquina dos governos não pode parar e necessita de financiamento. Entretanto, devemos nos ater a alguns detalhes que envolvem o momento atual, que requer muita habilidade e firmeza nas decisões a serem tomadas. Para tanto, devemos nos reportar a uma entrevista dada pelo deputado Delfim Netto, a um prestigiado veículo de imprensa, que num trecho, menciona: O Brasil só tem uma saída: ou amplia as exportações de maneira vigorosa ou não vai poder crescer.
Se ativermo-nos aos detalhes que envolvem a afirmativa deste eminente professor, podemos também fazer especulações sobre as possibilidades da agricultura poder contribuir muito mais ainda para a nossa pauta de produtos exportados, contanto, é claro, que haja efetivamente subsídios às exportações. Isso naturalmente não é novidade, e só realça os erros que têm sido cometidos com o setor agropecuário, na medida em que temos assistido passivamente a tributação das nossas exportações e a compra de produtos subsidiados na sua origem.
Outro detalhe interessante é verificarmos o poder de persuasão das indústrias ligadas ao setor automotivo. Qualquer indício de abalo neste segmento é seguido de medidas de estímulo em tempo recorde, promovendo certa intranquilidade com a retomada dos negócios. Até podemos entender que este setor produtivo movimenta recursos significativos e mantém altos níveis de ocupação de mão-de-obra em todo o complexo produtivo. Apenas estamos nos recusando a entender a razão pela qual a agropecuária ainda não é a bola da vez.
Façamos então, o papel de críticos das atitudes anteriores, mas de apresentarmos alternativas que possibilitem o avanço da nossa economia em níveis compatíveis com o desejável, para mantermo-nos em posição estratégica à atração de investimentos internacionais, reduzindo de forma significativa o chamado Risco Brasil, pensando que uma das alternativas é a agropecuária.
Se tivéssemos que promover a exportação de produtos agropecuários através de medidas de incentivo, teríamos, de imediato, as respostas necessárias, haja visto que existe correlação direta entre a produtividade e a possibilidade de obtenção de preços atrativos para os produtos. Por outro lado, atrelados aos incentivos à exportação de tais produtos, deveríamos manter programas de incentivo a modernização das indústrias de transformação de matérias-primas, além de ampliarmos a possibilidade de criação de novas agroindústrias. Assim agindo, os governos poderiam disseminar possibilidades para que o País pudesse expressar a sua gigantesca capacidade de expandir sua fronteira agrícola, lado a lado com a famigerada competitividade.
E por falar em competitividade, devemos também ressaltar, na mesma entrevista do Dr. Delfim, trecho que se destaca: Temos uma política econômica que destrói o próprio sistema produtivo e ainda constrói um pensamento hegemônico dizendo que o brasileiro é ineficiente.
É evidente que este seja o pensamento mais comum que todos nós temos quando fazemos especulações acerca das nossas possibilidades de competição com outros mercados. Não obstante, devemos ressaltar a importância da atuação governamental no sentido do aumento da nossa condição competitiva e não aceitamos a hipótese que determina o Estado ausente.
A definição de políticas para o setor agropecuário não deve ser caracterizada apenas por intermédio de recursos para custeio, mas necessita englobar fatores tais como: pesquisa e desenvolvimento, assistência técnica, incentivos à utilização de tecnologias alternativas e à organização de produtores, ensino em todos os níveis, ampliação e modernização dos sistemas de armazenagem e, sobretudo pelo entendimento sobre as necessidades do setor, vis-à-vis a sua capacidade de conferir respostas econômicas e sociais.
Desta forma, em que pesem os inúmeros apelos de campanha, externados no momento político atual, devemos ser capazes de, organizados, exigir medidas que nos possibilitem na maior participação na geração de emprego e renda, pois só assim, estaremos fazendo cumprir o nosso papel de reais agentes do desenvolvimento.
- MARCOS ELIAS TRAAD DA SILVA é zootecnista em Curitiba e presidente da Associação Brasileira de Zootecnistas (ABZ)


