Em 1929 Mário de Andrade, grande estudioso da cultura brasileira, compôs ''Viola Quebrada'', quase que um hino da música caipira. Modernista, aquele que soube muito bem descrever o caráter do nosso povo, o espírito macunaímico da nossa gente, andou aqui pela nossa região de campinas pesquisando ritmos caipiras, como o cururú. Isso mostra que não é de hoje que o tema tem chamado a atenção e vem a calhar, pois algumas matérias sobre o tema caipira têm sido publicadas nos nossos jornais e de forma bastante positiva têm feito muitos repensarem e descobrirem suas raízes.
Mas o que é ser caipira? As definições são muito variadas: ''aquele que vive no interior, fora dos centros urbanos, tem pouca instrução, roceiro, tímido, acanhado, pouco sociável, ou natural de certas regiões sudeste e centro-oeste do país'', e por aí vai. Há não muito tempo, nosso presidente FHC , numa entrevista, usou o termo para caracterizar a maioria dos brasileiros, porém, de uma forma talvez um pouco pejorativa. Será que ser caipira é realmente pejorativo? Nossa opinião é que ser considerado caipira é até um elogio, é trazer no sangue o gosto pelas coisas simples.
Na música, bons brasileiros como o já mencionado Mário de Andrade, Villa-Lobos, Antonio Carlos Jobim, Ivan Lins, Gilberto Gil e também escritores e compositores já escreveram temas dedicados aos caipiras. Além do citado clássico ''Viola Quebrada'' de Mário de Andrade, temos ''O trenzinho caipira'', consagrada e executada por todos os cantos, composta por Villa-Lobos; o Jobim, com o '' Trem de Ferro'' e ''Caminho de Pedra''; Gilberto Gil com o belíssimo ''Lamento Sertanejo'', que descreve características do nosso povo do sertão: ''eu quase num falo, eu quase não tenho amigos, eu quase que não consigo viver na cidade sem ficar contrariado''. Temos compositores e intérpretes de todos estilos e graus de instrução e de musicalidade considerados caipiras, de João Pacífico, com sua triste e singela ''Cabocla Tereza'', Raul Torres e Tião Carreiro, com suas músicas simples e cheias de brasilidade, até arranjos mais complexos de compositores mais jovens de todos os cantos do país como Almir Sater, instrumentista de grande talento, lá do Mato Grosso, Renato Teixeira, que com sua ''Romaria'', na voz da Elis Regina, fez sucesso durante muito tempo e é considerada também um outro hino dos caipiras: ''sou caipira pirapora Nossa, Senhora de Aparecida, ilumina a mina escura e funda o trem da minha vida''. Ivan Villela e Paulo Freire, estes últimos atuando em Campinas, são outros talentosos violeiros, responsáveis pela divulgação da música de raiz entre nós.
Às vezes, como nos versos do Gil, a cidade grande inibe o caipira de coração, que tem que conviver com ela, tem que andar nas suas ruas, tem que conviver com sua gente, suas neuroses e modismos. Mas o caipira se adapta, estuda, cresce, viaja e conhece outras fronteiras.
Alguma confusão tem havido na tentativa de definir caipira e sertanejo, principalmente na música, na verdade o sertanejo-pop. Este último, tem outros objetivos, muito bem definidos por Rosa Nepomuceno no livro ''Música Caipira'', da Editora 34, 1999, quando explicando essas diferenças afirma: ''o capiau já perdera sua ingenuidade e a roça, o encanto...regido por novos parâmetros, sob os quais a música deixara de ser simplesmente arte... para se transformar numa indústria gigante, sustentada por vendagens astronômicas e capaz de recompensar os vencedores com muito dinheiro''.
Campinas tem hoje um grupo chamado Oficina de Viola Caipira, que tem mostrado à nossa região e a outras partes do país que, por meio da música, se pode conseguir manter unidas pessoas de segmentos sociais diferentes, pelo gosto por um instrumento, a viola de dez cordas.
Esse projeto todo foi concebido pelo Ivan Vilela, já citado, e que no próximo dia 14 de julho, quando Campinas fará mais um aniversário, estará recebendo no Teatro do Centro de Convivência, representando todos os integrantes da Oficina de Viola Caipira , a Medalha ''Carlos Gomes'', concedida pela Câmara Municipal de Campinas.
Podemos então dizer, cada um de nós, nascido ou criado nesta terra de Carlos Gomes: ''Sou caipira sim, e me orgulho disso!''
JUVENAL A. OLIVEIRA FILHO é médico oncologista e integrante da Oficina de Viola Caipira de Campinas

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