Percorrendo-se na linha do tempo da história da educação no Brasil, no dia 15 de outubro do ano de 1827 Dom Pedro I, o então Imperador da nação, baixava um decreto imperial que criaria as Escolas de Primeiras Letras, equivalente ao ensino fundamental nos dias de hoje, o qual simboliza e marca o Dia do Professor. Nesse documento, também estavam estabelecidas as condições de trabalho do professor, dentre as quais, a sua contratação e o seu salário.

A reflexão que ora proponho trata-se do ofício da docência e parte de uma tríade de questionamentos de sentidos que, frequentemente, buscamos dar ou atribuir à nossa profissão e a sua ação histórica e social, isto é, ao trabalho docente conduzido, muitas vezes, em uma larga trajetória de nossas vidas: Que professores nós somos? Que professores nós gostaríamos de ser? Que professores nós realmente podemos ser?

Na obra O Capital (1894), Karl Marx define o "ofício" do homem como o conhecimento essencialmente articulado à sua natureza, produção e desenvolvimento de uma ação. Nas sociedades primitivas, cada indivíduo realizava a sua especialidade com um sentido próprio e pessoal da ação empregada socialmente. Historicamente, os diferentes ofícios ou conhecimentos eram concentrados em um mesmo local e, por meio da cooperação, cada um realizava sua atividade especializada. O trabalho feito em conjunto obtinha o seu produto final, ou seja, a sua totalidade era executada pela união desses especialistas e seus ofícios.

Ao se transpor a relação entre sentido e significado de uma ação para o trabalho docente vamos entender que a simbiose existente entre o significado das ações do professor e os seus sentidos para ele se descaracterizou a partir da divisão social do trabalho e da exploração deste quando na adoção e implantação de uma sociedade capitalista em quase todo o mundo. Houve a ruptura da integração entre o significado e o sentido da ação na execução do trabalho humano. O sentido pessoal da ação não corresponde mais ao seu significado. O processo do sistema fabril, sobretudo o trabalho mecânico ou técnico (racional/instrumental), foi transferido para todas as instâncias do setor produtivo e, por que não, para o sistema produtivo educacional.

O professor torna-se, então, um executor de tarefas prescritas a serem cumpridas no seu trabalho de docência, quais sejam, preenchimento de relatórios, planejamento de aulas e cumprimento de conteúdos e cargas horárias. Analisando-se por esta perspectiva, verificamos que o trabalho da docência sofre uma forte ruptura entre o significado socialmente construído de ser professor e de qual é o seu verdadeiro papel na (forma)ação do indivíduo e o(s) sentido(s) que este especialista da educação atribui à sua atividade como formador hoje. Em síntese, as condições subjetivas da formação humana e profissional do ofício de professor perdem seus sentidos em meio às condições objetivas que se lhes apresentam (tarefas e metas a serem ligeiramente cumpridas, salas de aula abarrotadas de alunos com uma grande heterogeneidade cultural, social e econômica, dentre tantos outros) no sistema educacional brasileiro.

Para finalizar essa breve reflexão, retomo o pensamento histórico de Karl Marx de que "o homem é o seu trabalho" e, considerando os atuais impactos ideologicamente políticos, econômicos e socioculturais sobre o trabalho da docência, respondo ao questionamento "Que professores nós realmente podemos ser?" atribuindo um novo sentido para os versos de uma canção popularmente brasileira, e digo: "somos o que podemos ser, somos o que podemos crer", mediante as atuais condições objetivas, sob as quais exercemos nossa docência.

Raquel Silvano Almeida, professora doutora da Unespar (Universidade Estadual do Paraná), campus de Apucarana.

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