Sensibilidade, a qualidade ausente
PUBLICAÇÃO
sábado, 17 de maio de 1997
Francisca Virgínia Soares 
Albert Camus escreveu em O Homem Revoltado: Se não se acredita em nada, se nada faz sentido e se não podemos afirmar nenhum valor, tudo é possível e nada tem importância. Não há pró nem contra, o assassino não está certo nem errado.
A formulação de Camus parece bastante pertinente para explicar as manifestações de horror e de banalização da vida que se instalaram em nossa época. Não é difícil perceber o vazio em que mergulhou a sociedade, do ponto de vista moral e ético. Este vazio diz respeito a valores básicos como a sensibilidade, a piedade, a solidariedade, a emoção e a própria noção de igualdade. Tudo parece confirmar que o tempo presente se caracteriza pela descartabilidade do indivíduo, principalmente daquele que não se identifica com a maioria, a partir do paradigma do consumo imposto pelo sistema produtivo.
Na galeria de crimes bárbaros praticados contra a humanidade, mais um acaba de ser exposto nesta horrenda coleção: o assassinato do índio Pataxó Galdino Jesus dos Santos, em Brasília, no dia 20/3/97, por cinco rapazes da classe média alta. Este crime parece indicar que a humanidade aprendeu a viver nas condições mais brutalizadas e intoleráveis, num mundo em que as matanças, a tortura e o exílio tornaram-se fatos corriqueiros. O modo como Galdino foi assassinado indica a fúria e o desprezo pela vida humana. O desprezo e a indiferença ficaram marcantes, porque eles pensaram que era apenas um mendigo o que na, visão deles, significa não há pró e nem contra, porque um mendigo é descartável.
Este modo indiferente de ver o outro indica que estamos na época da premeditação, como assinalou ainda Camus. O que significa dizer que a partir do instante em que o crime é racionalizado ele prolifera como a própria razão assumindo todas as figuras do silogismo. Interessante observar que esta razão desarticulada da emoção gerou a cultura da razão cínica, esta que tem quatro atributos: o cinismo, a delinquência, a violência e o narcisismo, como pontuou o psicanalista Jurandir Freire Costa. Assim, o crime contra Galdino demonstra o grau exacerbado do cinismo e da delinquência de alguns indivíduos mauricinhos que aprenderam, acima de tudo, que não devem se preocupar com os outros. Devem cuidar do próprio futuro, já que do resto a globalização e o mercado se encarregam.
Obviamente não estamos imputando à globalização ou à massificação da tecnologia a culpa pelo assassinato do índio Galdino. Porém, o que é possível constatar é que vivemos numa cultura moral onde o avanço tecnológico e o desejo de partilhá-lo vêm sendo usados como instrumentos para a produção de um mundo insensível, que pode contribuir ainda mais para o acirramento da violência contra as minorias e de crimes como o que ocorreu. A cultura da razão cínica ou a cultura da crueldade gerou o comportamento da indiferença, que indica, já há algum tempo, a substituição de valores internos - como os estéticos, morais, éticos, filosóficos etc - por valores externos, como os ligados ao poder, ao dinheiro, ao sucesso, ao prestígio etc. Dito de outro modo, é esta cultura cruel que se incrustou no coração, na alma e na mente das pessoas, tornando-as incapazes de sentir a dor do outro. Como resultado disso, passam a ver seu semelhante não como um sujeito moral, mas como alguém que pode sofrer, como alguém sensível à crueldade. Esta se caracteriza como sendo uma marca e uma qualidade dos indivíduos de nossa modernidade.
Esta reflexão é essencial. Todavia, ela deve assumir um caráter prático, onde o paradigma da vida assuma um novo sentido e importância. Isto se dará quando se conseguir resgatar no homem moderno a sensibilidade, qualidade básica para a identificação com a dor do outro. É necessário ainda combater a impunidade, a idolatria ao dinheiro, ao consumo desenfreado, ao esvaziamento das idéias, da política, dos ideais. Estes aspectos implicam antes de tudo no resgate do sentido de civilidade. E a civilidade, se surgiu como um modo de nos salvar da barbárie num determinado momento da história, parece mostrar-se incapaz de frear o mal-estar da guerra de todos contra todos.
Em suma, se o nosso tempo admite tranquilamente que o assassinato tenha suas justificações, é essa indiferença que marca o niilismo da vida. Ou a sua destruição.


