Semeadores de esperanças - Walmor Maccarini
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 18 de março de 1998
Walmor Maccarini 
Pessoas me encomendam: meta o pau nesses políticos fisiologistas, desmascare esse deputado construtor, fale da violência da tevê, dos juros altos, do desemprego, da vagabundagem, da miséria, da fome. De vez em quando eu falo. Mas convenhamos que já há milhares de jornalistas falando nisto. E eles não têm conseguido resolver os problemas nem do Brasil e nem do mundo. Porque todos esses males imanam das próprias pessoas; da mente e do comportamento coletivo. O ideal seria se encontrássemos uma fórmula mágica de incutir em cada um a consciência... Aí a grande maioria dos problemas desapareceria por encanto. Enquanto isto, quero, pelos menos às vezes, usar do direito de falar de flores!
...Chego à Cidade do México. Na rua, o homem com violão em punho se aproxima e oferece: Quieres que lhe cante una canción?. Pensei: se ele quer me cantar uma canção, por que não haverei de ouvir? Meio de vida que fosse, achei carinhoso o gesto. Afinal, se muitos nos assaltam nas ruas, tomam nossa carteira, levam nosso automóvel, nos agridem e nos ferem, este me oferecia uma canção. Tratei logo de pedir que cantasse, temendo que ele mudasse de idéia, pois hoje se encontram poucos que se ofereçam para nos cantar uma canção. E poucos que queiram ouvir.
Aqui na Redação do jornal, alunos de uma escola de música chegam certa tarde e a regente do grupo nos diz: Viemos tocar para vocês. Enquanto lá fora nações ameaçavam-se mutuamente, sedentas de fazer uma guerra, e aí pelo mundo os homens continuavam planejando estratégias de tirar proveito uns dos outros, alguém vinha nos tocar uma música... Suspirei aliviado: o planeta está salvo se alguém ainda nos oferece uma música e nos canta uma canção!
Pelos cantos do mundo há pessoas que nos subjugam ou que simplesmente nos ignoram, e há aquelas que nos oferecem uma canção.
Pelas noites, próximas de locais onde casais se reúnem, menininhas nos oferecem rosas. Ganham por elas, naturalmente, mas nos oferecem rosas...
Há aqueles que nos assaltam, mas ainda há os que nos oferecem flores!
O que dizer, então, de uma pessoa que chega à nossa casa, de tarde, quando a maioria dos familiares está fora, e nos confecciona um arranjo floral, uma ikebana?! Quem faz isto é uma amiga nissei que tenho. Ela tem a doce mania de ir fazer ikebana nas casas das pessoas amigas. E o faz há tantos anos! Ela mesma traz as flores, os galhos, as palmas, a tesoura e até aquele ouriço de apoio. Nada cobra, e por acréscimo fica sorrindo aquele sorriso oriental, sem dizer palavra quando lhe agradecemos. Para ela, fazer essas coisas importantes é tão simples!
Se lhe perguntamos, ela explica que a ikebana traz paz, harmonia e felicidade para dentro de casa.
A ikebana é um arranjo de galhos, folhagens e flores, que respeita o princípio da trilogia cósmica que se baseia na força do Sol, da Lua e da Terra. A haste escolhida para representar o Sol deve ser a mais alta. A da Lua deve medir 2/3 da haste superior. E a da Terra metade da haste do Sol. O passado é simbolizado por galhos secos; o presente, por flores abertas; e o futuro pelos botões. Cada arranjo reflete o sentimento de quem o faz.
A ikebana é um poema em forma de galhos e palmas, dispostos em sublime harmonia.
É isto que minha amiga faz em suas tardes de folga, enquanto a cidade corre atrás do tempo, apressada para chegar não se sabe onde. Ela semeia harmonia.
E neste domingo, enquanto eu curtia o fim da tarde na varanda de um lugar público, o menininho de pouco mais de cinco anos se chega e me oferece anjinhos, destes confeccionados com resina. Diversos, de múltiplas cores. - É para ajudar a minha creche, ele diz. Comprei um, por preferência de cor violeta, e fiquei olhando para os dois - o menino e o anjo - sem distinguir quem era mais angelical.
O mundo está salvo se ainda há alguém que, nos fins-de-tarde de nossos dias, nos vêm oferecer anjinhos; está salvo se ainda há quem venha à nossa casa para nos fazer -tão somente pelo prazer de fazer -um arranjo floral; quem se ofereça para nos cantar uma canção.
Estas pessoas semeiam esperanças, semeiam a certeza de que, nos oferecendo um anjinho, uma canção ou uma flor, fazem-nos acreditar que o mundo não se perdeu e que ainda é bom de se viver; que vale a pena continuar vivendo e acreditando que o sonho não acabou....
Enquanto houver semeadores de canções, de flores e de anjinhos há esperança!


